A seca e o raso

Então agora temos seca. Agora? Mas e o que sempre tivemos no Nordeste não é seca? Mas lá a coisa é diferente. É? É. O cactus, o sertão alaranjado, os ossos de boi esturricados sob o sol, tudo isso é paisagem regional. Sim, é coisa da paisagem, é o Saara brasileiro. Ah, bom. Mas se agora temos seca no Sudeste, é hora de entender o que há. Sim, o caso de paisagem regional aqui não cola. Não cola mesmo. Bem, então agora vão se mexer e entender o que há. Não sei, temos quinhentos anos e estamos sempre perdidos com essa coisa de entender o que há. Falaram disso no debate eleitoral, será que agora vai? Não sei, tudo é sempre pior do que se diz no debate eleitoral. Soube que o desmatamento na Amazônia pode estar por trás da seca no Sudeste. Isso mesmo, também soube. Repare a comparação: cento e oitenta milhões de campos de futebol devastados. Nossa, nessa área desmatada caberiam um bilhão, novecentos e oitenta milhões de jogadores. Será que sobra espaço pra torcida? Já, já. Que interessante essa coisa de rios aéreos. Sim, eles vêm lá da Floresta Amazônica e se deixam despejar em forma de chuva em cima do Sudeste. É um presentão. Verdade, mas a mamata vai acabar. Estranho, ninguém disse isso no debate eleitoral. Ah, mas o debate eleitoral é tão raso quanto a represa de Guarapiranga. Que clichê. Que clichê, é verdade. Acho que o Saara brasileiro vai crescer. Vai sim, vai virar paisagem nacional. Nunca mais teremos quinhentos anos para entender o que há. Não, nunca mais.

A matemática do ébrio

Ele usa chapéu de vaqueiro e a barba ocupa-lhe mais da metade do rosto. Veste casaco camuflado do estilo exército, bermuda cor-de-abóbora e chinelo de dedo. Não separando o amanhã do hoje, parece ter atravessado a noite aos goles. Com andar trôpego e lento, ele vem em minha direção. Viro o rosto, disfarço e tento planejar na mente algum tipo de desculpa: “meu amigo, hoje saí de casa sem dinheiro, foi mal.” O homem começa a falar e me provoca dores na consciência. Não, nem tudo é dinheiro. O que ele quer é me propor um desafio, um desafio intelectual. Sem cerimônia, dispara: “Quanto é metade de dois mais dois?” Meu cérebro por volta das sete da manhã ainda não admite maiores raciocínios que admitam maliciosas alternativas. Tasco logo um “dois!” O homem sorri vitorioso, balançando a cabeça negativamente. Em seguida, oferece ajuda feito o professor que anseia pela evolução do aluno inepto: “Quanto é metade de dois?” “Um”, respondo. “Mais dois?”, facilita o homem. O cérebro pega no tranco e eu acerto: “Três”. O homem comemora meu desempenho. Sente-se dotado de sabedoria farta, tão farta que é admissível sua distribuição aos parvos que se espalham pelo caminho. Ao se afastar, comenta às gargalhadas: “Tá vendo como vou me dar bem no Natal!?”

O cavalete alegre

E então chegou a época em que eles se espalham por toda a cidade, por todas as cidades. Todos estão sorrindo, alguns gargalham e mostram dentes de cristais, outros exibem o sorriso contido de galã enigmático. Estão rindo do quê? Por que vão se dar bem? Estão rindo de quem? De mim, de você? Reparem: são sempre os mesmos de quatro anos atrás (ou de dois anos, dependendo da ansiedade de cada um). Se tivermos tempo ou paciência, vamos perceber que estão ficando careca ou com fios do cabelo mais esbranquiçados. Pelo menos o tempo eles não conseguem enganar. Vários deles carregam nas costas o acúmulo de processos criminais e de improbidade administrativa. Mas o que há de mal nisso, se o sorriso deles é tão puro e sereno? A verdade é que nem todos são bem-humorados, nem todos sorriem com facilidade e, claro, por serem humanos há até os que possam sofrer de depressão e problemas do gênero. Seria mais sincero se posassem carrancudos, tristes ou sérios. Qual o problema? 
A mentira começa na foto.   

Dispenso o hexa

O retrato que eu tenho da copa do mundo de 2014, exclusivamente quanto à seleção brasileira, é a imagem em que Thiago Silva, capitão do time, com corpo molengo de soldado ferido, é escorado aos prantos por Felipão depois do jogo contra o Chile nas oitavas de final. É o típico caso em que uma imagem vale mais que mil palavras.
Gosto de futebol e por isso me sinto à vontade para repetir as conclusões mais desanimadoras e nem por isso menos realistas: muito marketing e pouco futebol, muito sentimentalismo forçado e pouca emoção espontânea, muito individualismo e pouco coletivismo, muito choro e pouca alegria. E por aí vai.
Passado um mês da grande final, haverá quem diga que analisar copa do mundo nesta altura do campeonato é remexer discussão ultrapassada. Concordo. Mas então por que damos tanta importância a algo que, passado um mês, já é tido como tema desatualizado e que talvez já nem faça parte de nossos pensamentos diários? Este é o ponto: nesse terreno do futebol, somos doutrinados, assim como mulher de malandro, a dar valor exagerado àquilo que não merece muito mais que uma atenção passageira, um breve torpor, um suspiro de divertimento. Nesse aspecto, acho que o “sete a um” foi aquele tipo de remédio amargo que pode fazer melhorar a prepotência inútil que se reflete naquela frase batida: “somos o país do melhor futebol”. Os estrangeiros já não precisam mais responder, com ar blasé, “e daí?!”, porque depois do “sete a um”, a afirmação soa falsa, além de, agora, beirar o ridículo. Podíamos tentar ser melhores em alguma outra coisa mais importante.
O superdimensionamento que se deu à copa e que normalmente é dado às coisas ligadas ao nosso futebol bem poderia ser repetido agora que Artur Ávila, brasileiro, recebe a medalha Fields, o mais importante prêmio de matemática do mundo. É o que se tem denominado de Nobel da Matemática. O Brasil, que sempre se ressentiu de nunca ter conquistado prêmios máximos de ciência ou cultura, enfim pode se dar o luxo de comemorar a proeza. Temos aí um fato que merece os peculiares gritos de euforia de Galvão Bueno. Sim, é a vez de alardear um grande feito repetidas vezes, exaustivas vezes, em todos os meios de comunicação, valendo até aquelas campanhas publicitárias ufanistas que exaltam a condição de ser brasileiro com muito orgulho, com muito amor. Mas dessa vez a intenção não é encher o bolso das gigantescas empresas patrocinadoras do milionário mundo do futebol. Há a chance de difundir na cabeça das crianças o fato de que o estudo é meio de sucesso pessoal e profissional e que a satisfação não está somente na torcida pela vitória atlética de outras pessoas; também, e principalmente, está na capacidade de alcançar sua própria vitória. Obviamente que tudo isso não tem muito sentido sem que se melhorem as escolas e se valorizem os profissionais do ensino. Mas aí é questão de prioridade. Que a medalha Fields ajude o país a repensar o valor que ele dá às suas preferências.

Se eu, amante do futebol, trocaria a medalha Fields pelo hexa? Não, obrigado. 

Meus vizinhos são os ossos

Às vezes tento formar no pensamento o rosto da minha mãe. O nariz fica grande demais, os olhos não se alinham, a boca tem os lábios entumecidos. Fico aborrecido quando só o que consigo imaginar é um borrão desforme, pardo e emoldurado com os cabelos dela. A figura perfeita do rosto vem quando quer, e não quando eu quero. Me pega de surpresa. O rosto aparece do nada, nos momentos em que estou distraído. É muito rápido. Tento lutar com minha própria memória para que ele não se dissolva. É inútil. O rosto da minha mãe é como o desenho da nuvem que se deforma muito rápido. Já a voz dela não me vem quando quero e nem em qualquer outro momento. Está apagada para sempre desde o último suspiro. Às vezes gosto de me enganar. Quando o vento faz barulho, penso ser a voz da minha mãe. Algumas vezes ela me chama, algumas vezes ela me grita.
O sopro do vento é minha única e talvez última companhia. Estou só. Por todo meu redor não há ninguém. O sol esturrica tudo e faz o chão queimar. A terra secou e a água só faz visita nas poucas vezes de chuva. A sobrevivência por aqui é quase aberração. Minha mãe deixou de comer para não faltar comida aos filhos. Quase nada adiantou morrer de fome. Meus irmãos morreram um tantinho depois. Nunca precisei de muito para o sustento. A minha pessoa foi a única que restou. Mas talvez permanecer vivo neste lugar seja o castigo que eu mereça. A penitência que carrego é a lembrança diária do que eu fiz.
“Se arruma”, ordenava minha mãe. “Se arruma rápido”, insistia minha mãe. Queria que eu ficasse pronto para ir à escolinha. Achava que eu encontraria a chave que me libertaria da miséria. Eu berrava, me debatia no chão, fazia a pior das pirraças. Agarrei-me à perna da minha mãe com uma força desconhecida. Chorava e dizia que não queria me afastar dela. O braço da minha mãe se levantou o mais alto que podia, deixou-se cair e quando caiu levei uma bofetada que me fez calar. Ao sentir o rosto em ardência, desejei que minha mãe morresse. Aí está a maldição que me acompanha feito sombra. Não adiantou arrependimento. O meu intento já havia escapado e vagava livre no ar. No princípio imaginei que só teria minha própria consciência como testemunha. Mas é óbvio que o meu intento esteve bem à vista de Deus e do Diabo. Quando a minha mãe morreu, eu sabia que no fundo o meu intento deixara de vagar a esmo e encontrara a sua razão de ser.
A solidão nunca dá brecha para ser vencida. Estar mergulhado neste vazio é como nascer: não há escolha. Tenho andado em todas as direções e não encontro ninguém. Invado barracos vazios e inspeciono as ruínas de um vilarejo qualquer. O que me mantém vivo são os bichos que também desconhecem a razão de estarem perambulando por aqui. Pretendo que nem os bichos façam aparição à minha frente. Mas tenho medo da morte. Tenho medo de que minha mãe, lá na mansão dos mortos, já tenha descoberto tudo a respeito do dia em que desejei a morte dela. Não saberia como me explicar.
Já dos coiotes eu não tenho medo. Não se interessam por mim enquanto eu estiver vivo. Os coiotes deste lugar são pragas que aparecem para vilipendiar os mortos. Não precisam se preocupar com o trabalho do abate. São dotados de um faro mórbido que os conduz sem demora ao local da comida. São bem mais rápidos que os urubus, o que lhes garante as carnes mais suculentas. Não é coisa boa de ver.
Quando a minha mãe morreu, levaram o corpo para longe das minhas vistas. Disseram que era caso de enterro urgente e afastado. Naquele tempo, a justificativa me foi conveniente, afinal eu não teria mesmo coragem de encarar o rosto falecido da minha mãe. E se ela estivesse sorrindo na hora da morte? E se ela estivesse sorrindo para mim? O maldito desejo de fazer-se produzir seu sono irreversível era vergonha que me impediu a despedida. Ocorre que minha inteligência de hoje, que é melhor que a de ontem, sabe que os coiotes é que deram causa ao sumiço do corpo. É coisa difícil de ver e por isso mentiram para mim.
Sim, eu sei que minha vida não tem sentido senão o de expiar a minha falta. Mas, se morrer é benefício que por enquanto não posso alcançar, é justo que alguma ideia venha em socorro dos meus dias. A condição de estar condenado a conviver com a própria consciência não favorece a inovação das ideias e então é preciso atenção para não perder uma brecha que seja. E ela me vem. O relâmpago que ilumina em centésimos de segundo uma noite escura. É dessa maneira que ela me vem. A ideia súbita me força a procurar o corpo da minha mãe. Eis a distração que agora me move. Pois então como encontrar o que restou da minha mãe se não há alguém ao meu entorno para me orientar? Nem mesmo os bichos que me mantem a sobrevivência podem me prestar auxílio. Mas uma ideia sempre ativa as engrenagens do pensamento. Os coiotes, essas criaturas repugnantes que desrespeitaram a minha mãe, não têm mais de quem arrancar as vísceras. Não há ninguém ao redor. É possível que estejam a rondar os cemitérios à procura de vítimas repetidas. Este é o tempo em que os coiotes vivem de alimento requentado. Algum deles haverá de me levar até minha mãe.
Lá está um deles. De tanto fuçar entranhas, o pelo da cara apresenta a permanência de um tom rosado. Não é difícil persegui-lo. Tem os olhos pregados no horizonte. Depois que estive por tanto tempo na trilha aberta pelo coiote, avisto um mar de túmulos equidistantes entre si. Junto montes de pedras nas mãos e com elas espanto todos os coiotes que vejo pela frente. Arremesso com força, arremesso com raiva, porque o reencontro com a minha mãe não cabe a testemunho de animal traiçoeiro. Estou diante do túmulo da minha mãe e finalmente tenho a oportunidade de me despedir. “Mãezinha, me desculpa. Se a senhora desejar, volto à escolinha. Volto no tempo para lhe obedecer e para arrancar da cabeça o intento que me contaminou os dias. Acredite em mim, mãezinha querida, o desejo de hoje é o oposto daquele intento que apodreceu meu futuro: desejo sua ressurreição, desejo que esteja viva ao meu lado. Só mesmo a senhora tem o poder de desafiar a solidão que me mantém cativo em masmorra fria. Minha mãe, por favor, não me recuse o perdão.” Enquanto estou de joelhos ao lado do túmulo da minha mãe, ouço passos se aproximarem. Passos? De repente algo invade a musculatura do meu braço. Estou fraco, desfalecendo. Será que, enfim, é minha morte que se aproxima? Minha mãe virá me buscar? Uma fisgada é a última sensação antes de perder os sentidos.         

Na clausura em que experimento a mais brutal das solidões, rompe-se uma fenda, pela qual atravessa uma voz. Ela pede que eu conte a minha história. Estou inebriado e distante. Conto tudo. A voz é branda. Diz coisas que eu não entendo. Diz que meus irmãos estão vivos e administram o espólio da minha mãe. Brigam entre si. Diz que eles morreram para mim no momento em que passaram a pretender a minha internação. São coiotes. Diz que a miséria a que me refiro é a miséria moral trazida pelo acúmulo de bens e dinheiro. Diz também que não estou sozinho e que há pessoas velando pela minha saúde. Trajam o branco da paz. São os bichos que me mantém a sobrevivência. A voz se cala. Quando a fenda se fechar, quero dar conta do meu novo intento. Estarei de prontidão ao lado da minha mãe, e por lá fincarei permanência até que ela retorne. 

A poética da mendincância

Normalmente o cenário em que se amontoam alguns mendigos de uma cidade é visto como paisagem triste porém merecedora de, no mínimo, dois segundos de atenção que logo se evapora. Assim é que a miséria exposta nos cantos da praças e ruas é ignorada, ou em outra perspectiva, tida como parte componente da sorte que a cada um cabe.
Na obra “O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam”, de Evandro Affonso Ferreira, a um mendigo é concedida voz e a partir disso o mundo desses miseráveis destaca-se e recebe uma rajada de luz que os retira, pelo menos durante o período de cento e vinte e sete páginas, de sua insignificância. Diferente do que possa parecer, há sentimento e história em cada ser maltrapilho que se arrasta por entre as pessoas que não o enxergam ou que o desprezam ou que o temem.
Eis uma obra de arte em que o mendigo-narrador, abusando de raciocínios líricos, dramáticos e encantadores, demonstra que mesmo aos menos afortunados é permitido o direito de amar com sofisticação.

Van Gogh não pintou seu fim

No dia 27 de julho de 1890, um domingo, após almoçar na Estalagem Ravoux, Vincent van Gogh, munido de tintas, cavalete e pincéis, envereda pelos campos de Auvers para mais uma sessão de pintura. Anoitece quando o pintor desponta com andar trôpego. Retorna sem cavalete, tintas e pincéis, trazendo um pequeno orifício sob as costelas. O que aconteceu de fato naquela tarde é um mistério e as explicações para tal lacuna socorrem-se apenas de versões.
Muito por causa da personalidade depressiva e transloucada do pintor, que inclusive em outros tempos já havia decepado parte de uma de suas orelhas, a versão que ganhou corpo ao longo dos anos é a de que Van Gogh teria cometido uma espécie de suicídio desastrado. Durante a sessão de pintura e enquanto usava a arma para espantar corvos, teria cometido o ato de atirar contra si. Mas a monumental obra biográfica “Van Gogh – a vida”, de Steven Naifeh e Gregory White Smith (Companhia das Letras) pretende confrontar veementemente a tão propalada versão de suicídio. Como se não bastasse a excelência do trabalho de pesquisa que percorre toda a vida do gênio holandês ao longo das mais de mil páginas, o livro já valeria a pena apenas pelo seu final, em que são esmiuçados todos os detalhes relacionados à tragédia, de modo a esclarecer, por exemplo, que o ferimento causado pelo tiro tinha pequenas dimensões e pouco sangramento, o que, associado ao fato de que a bala ficou alojada no corpo, indica que o tiro foi disparado à distância e não à queima-roupa como seria típico de um suicídio. Além disso, merece destaque a figura de René Secrétan, jovem de dezesseis anos que passava as férias em Auvers e que costumava se vestir com trajes de cowboy, incluindo o porte de uma pequena arma. Nesse contexto, levando-se em conta que René Secrétan tinha por hábito perturbar o pintor de modos extravagantes e que sumiu após o episódio (assim como também sumiram a arma e o material de pintura), é bem provável que Van Gogh tenha assumido a culpa e encoberto algum tipo de disparo provocado por brincadeira, acidente ou outro motivo qualquer que não estaria ligado à vontade do pintor, sobretudo diante de uma frase quase elucidativa dita em seu leito de morte: “não acusem ninguém.”

Enfim, após a leitura de “Van Gogh – a vida” é mesmo difícil abraçar a ideia de que Van Gogh tenha tirado deliberadamente a própria vida. Sua conturbada condição psíquica, ainda que parecesse invencível, não suplantou a obsessão em construir as bases de uma nova arte que dava sentido à sua vida. Quando morreu aos trinta e sete anos, estava no auge de sua produção, não parecendo justo que a Vincent van Gogh seja atribuída a responsabilidade incontestável de ter provocado a interrupção de um dos mais significativos patrimônios artísticos da humanidade.  

O pangaré branco

Ao longo do caminho há um terreno baldio. O chão é revestido de mato rasteiro, circunstância em que não é de se espantar a visão, através da tela vazada, de um pangaré branco. Mas ele está indisposto. É velho. Senta-se com enfado e talvez tenha percebido que alguém o observa. Seu rosto pontudo vagueia antes de tombar no chão. Morreu? Imediatamente examino a barriga volumosa. Ela vai e vem; sobe e desce com pressa. Sinto um alívio inocente antes de seguir para o trabalho.

É outro dia e eu já nem me lembro do pangaré branco, pelo menos até olhar novamente para o terreno baldio. Lá está ele. As patas se equilibram no solo desnivelado, o rabo balança espanando o chão, as ferraduras cavoucam o barro, os beiços proeminentes flertam com o capim. Que a ressurreição dure o quanto puder! 

Aquele que a todos domina


Você está sentado confortavelmente na poltrona do cinema, distraindo-se com o brilho da telona. Mas aí entra em ação o brilho concorrente de uma telinha menor, bem menor. Na mesma fileira em que você está sentado, uma mulher acende sua maquininha portátil dos infernos, na qual passa a deslizar seu ágil polegar. A condição vício-escravizante à qual está submetida não a faz perceber que sua atitude incomoda todos que estão à sua volta. E assim a prática inoportuna é repetida diversas vezes durante a exibição do filme.
Você entra em um táxi, que passa a percorrer a avenida engarrafada. O carro se move lentamente. Quando para, o motorista é ágil em acionar o freio de mão. Em seguida saca rapidamente o objeto hipnotizador que o atrai com o inconfundível sinal sonoro cuidadosamente projetado pela Apple: uma mensagem chegou. Sua ansiedade em responder prontamente a mensagem faz com que ele não perceba que o trânsito voltou a fluir. Alguns segundos depois o carro volta a parar, seguindo-se o frenético procedimento de réplica e tréplica, concomitantemente à prestação de um serviço, que, àquela altura, estava relegado ao segundo plano.
Você conversa animadamente com um amigo. O diálogo é bruscamente interrompido porque seu amigo precisa atender a uma chamada repentina. De interlocutor, você se torna testemunha dos assuntos longos e irrelevantes tratados entre seu amigo e a pessoa que o acionou através da caixinha portátil que a todos domina. Sabe-se que o identificador de chamadas foi inventado por um brasileiro. Mas essa engenhosa ferramenta não tem qualquer serventia quando, em detrimento ao contato pessoal, a prioridade absoluta é sempre concedida a quem está remotamente do outro lado da linha.    

Sou da última geração em que aquela transição entre infância e adolescência se deu sem a presença de celulares e internet. É daquele tempo que me vem a memória do prazer indizível que me tomava quando ouvia o berro dos meus amigos me chamando para jogar bola. 

A descrição piegas de um modo especial de andar

O ponto de ônibus é movimentado, o que não quer dizer que não seja monótono. Todos os ônibus são amarelos. Ao parar, todos produzem o mesmo som estridente. E todos se sucedem após a mesma arrancada impetuosa. No alto, o sinal alterna suas cores de sempre. Ali nunca haverá azul, ou cor-de-abóbora, ou roxo.

Mas alto lá. É preciso estar atento às brechas da rotina. Pela calçada se aproxima um casal de jovens. Bem jovens. Quase ainda crianças. Não os notaria com interesse se estivessem de mãos dadas. Caminham de um jeito singular. Ele a envolve em um abraço por trás. Estão grudados. Friccionam-se. Mas não há nisso qualquer traço de erotismo. Muito pelo contrário: exalam inocência. As pernas se movimentam em sincronia, provocando o efeito de parecerem sustentar um só corpo. As dele seguem as dela como se puxadas por um barbante imaginário. Há quem possa menosprezar a perícia do casal, mas aos implicantes recomendo que tentem fazer igual. Rapidamente perceberão que caminhar dessa forma, mais do que compatibilidade anatômica, requer a sintonia fina que contempla poucos e afortunados casais... Meu olhar os acompanha até que eles desapareçam na longitude da noite fria de agosto.

Embarco em um dos ônibus amarelos. Junto à janela percebo que alcancei o casal. É a última oportunidade de observar a cena, mesmo que por míseros segundos. Ele é alto. Em relação a ela, é muito alto. Os olhos dela, moldurados por óculos de aros vermelhos, projetam-se para cima. Não procuram as estrelas, nem a lua brilhante. Sorrindo, só o que querem é encontrar os olhos dele.

Ator duplicado

Começa com o pulsar que é levemente mais rápido que o normal. Avança para um estado em que a frequência cardíaca é elevada ao nível máximo de batimentos. Ao final do percurso entre a coxia e o palco, meu coração é o alvoroçado rufar de um tambor que me foge o controle. Tem sido assim durante cada apresentação que compõe os dez anos de minha carreira teatral. Se no momento em que as cortinas se abrirem houver circunstância de me faltar tal sensação, deixo de ser ator.

É bom que se diga que só se atua mediante monumental entrega. Que me perdoem os burocratas, mas, diferente das atividades exercidas por detrás das mesas de escritório, que muito costumeiramente admitem o convívio entre trabalho e desânimo ou produtividade e indisposição, o ofício de interpretar requer entusiasmo obrigatório, sem o qual não se está habilitado a frequentar o palco, um mundo que pelo intervalo de aproximadamente duas horas se afasta de tudo que o cerca, como se suspenso em outra dimensão. E é assim que ao final do espetáculo, desmanchando em suor, eu me sinto completamente exaurido, e isso porque deixo minha força e minha alma no palco. Só depois de um tempo consigo recuperá-las.

Todas essas reflexões me vêm, agora, enquanto vejo no espelho o reflexo do meu rosto maquiado. É natural que o artista interrogue a si mesmo sobre o sentido do seu trabalho. Em particular, ultimamente também tenho me perguntado quem sou eu. Soa o terceiro toque da campainha. O coração acelera aos poucos. É a vez de mais uma apresentação da peça em que atuo como um dos protagonistas.


Sou o renomado ator Francisco Riva e nos últimos tempos tenho contracenado com Verônica Luz, uma atriz de ascensão meteórica, daquelas cujo talento exuberante e irresistível abre todas as portas sem pedir licença. No início da temporada algo me incomodava. Durante as primeiras apresentações senti-me pressionado a impor a força da minha atuação como maneira de proteger o território ameaçado por uma quase novata. Nas cenas em que eu precisava encará-la bem de perto – olhos nos olhos negros que eram enquadrados por uma cascata de fios escuros e longos –, minha expressão facial se contorcia muito além do que a composição do meu papel exigia.  Passei a exagerar, e o exagero não há de ser confundido com a intensidade performática de um bom ator, pendendo a um incômodo artificialismo que comprometeu a minha atuação. Verônica não se intimidou. Ao contrário, pareceu reagir às minhas provocações com segurança. Bem, talvez ela nem tenha percebido minha tentativa de intimidá-la, o que representaria um tiro saído pela culatra, pois Verônica poderia ter assimilado o quão desqualificada era a atuação de quem a crítica cultuava como o “rei dos palcos”.

A derrocada da minha postura egocêntrica se deu exatamente na décima sétima apresentação. Uma das minhas falas consistia na declamação de um poema renascentista. Atravessava com desenvoltura cada um dos versos, até que em um deles troquei a ordem das palavras, o que foi suficiente para que eu me visse diante do pior inimigo de um ator: o “branco”. Pelo espaço de alguns segundos meu olhar percorreu a multidão de rostos que, confusos, estranhavam que eu tivesse me silenciado abruptamente. Para ganhar tempo, simulei uma dor no peito. A intenção era criar um disfarce em forma de cena inventada. O pequeno embuste fez o público acreditar que a comoção experimentada pelo personagem era parte da peça. Enquanto isso, assim como o asmático que busca o ar, eu vasculhava desesperadamente na memória as palavras fugidias. Só funcionaria se fosse rápido, mas o tempo avançava cruel e as palavras continuavam a me faltar. Via-se no centro do palco, envolto por uma ilha de luz, um ator e a sua iminente ruína. Mas, quando a caminho da desistência, já considerando minha carreira por um fio, uma voz feminina dominou as ações. Brado seguro e cortante: “É tudo quanto sinto, um desconcerto/ Da alma um fogo me sai, da vista um rio/ Agora espero, agora desconfio/ Agora desvario, agora acerto... É isso que temes me dizer?”. Além do seu próprio texto, Verônica dominava cada palavra da minha fala e, tendo a exata noção do meu apuro, lançou mão de um brilhante ato de improviso, recitando os versos que haviam me escapado. Imediatamente minha fala restituiu-se. O espetáculo prosseguiu. Verônica me salvou.

A partir de então passei a interpretar meu papel sem maiores extravagâncias. A verdade é que o modo como eu atuava deixou de ter importância, e foi como se eu me transformasse em uma espécie de espectador privilegiado. A mim interessava mais a oportunidade de presenciar, em minúcias, o magnetismo dos gestos, a vibração dos movimentos, a infalibilidade da dicção, elementos que compunham a magnitude artística de Verônica Luz. Lentamente me dei conta de que o meu prazer de interpretar cedeu espaço para o prazer de contracenar com Verônica. Pessoa e personagem confundiam-se em mim, a ponto de não se saber onde era o começo de um e o término do outro. Na trigésima terceira apresentação, enquanto aguardava minha deixa, tive uma ideia tão repentina quanto irresponsável. Adicionei à minha fala uma frase, uma mensagem intrusa e cifrada, que pretendia desafiar a perspicácia de Verônica. “Se é certo que ainda somos dois é porque ainda não sabemos que podemos ser um”. Nem sequer um engasgo ou alguma gagueira. Verônica era uma atriz completa até para fingir que nada diferente tivesse acontecido. Seguiu seu texto com naturalidade, impondo-me a condição de um idiota. Mas quase ao fim do espetáculo, quando então eu já havia abandonado a esperança de receber algum tipo de resposta velada, Verônica se manifestou do mesmo jeito que eu: através de uma mensagem escondida entre a sua corriqueira fala, um recado que me tragou ao mundo dos desiludidos. “Só somos um por força do ofício; fora dele, voltamos a ser dois.”


Sou Júlio Duarte. Enquanto observo meu rosto maquiado, vejo refletida ao fundo do espelho uma imagem reiterada. Beatriz esconde cuidadosamente os seus cabelos loiros debaixo da peruca que compõe a personagem Verônica Luz. O primeiro toque da campainha anuncia a iminência de mais uma apresentação. Ainda tenho tempo de me deixar entregue a reflexões sobre quem verdadeiramente tenho sido eu. De certa forma, interpretar Francisco Riva tem feito de mim um ator melhor, afinal ator que interpreta outro ator torna-se um ator duplicado. Mas nisso há o perigo de, às vezes, pessoa e personagem se verem atados em uma mistura indissociável. Sim, ainda haverá a oportunidade em que eu, através de uma frase incorporada à fala de Francisco Riva, desafie Beatriz a se manifestar sobre o que sente por mim.  

O homem é bicho de não ser só (versão em versos)

Sertão
Tão ermo
Enfadonho
Abandonado
Lá Cabral era esperado
Parecia que o tempo não passava ou nem sequer existia
Só se notava que existia e passava
Pela escuridão da noite que rendia o claro do dia
Rei mesmo era o sol
Esturricava tudo
Nem nuvem deixava passar
Não tinha culpa
Nasceu quente
Não queira que pudesse refrescar

Mas o homem é bicho teimoso

Brota até em solo pedregoso
Uma dupla apareceu
Só calango como testemunha
Sem nomenclatura, Alto e Baixo lhe serviam de alcunha
Era vida de viver só por viver
O melhor sentido que a vida devia ter
O vento, ligeiro, conseguia circular
Por falta de aparência não precisava se mostrar
Em redemoinho, trouxe foto do mar
O Baixo pegou a coisa e se pôs a sorrir
Gritou: “pra lá que quero ir”
Nem aceno de despedida
O Alto deu de ombros
Sobraria mais comida

Mas o homem é bicho de não ser só

O tempo passou
Tudo mudou
Só a consciência pra prosear
Nem com quem do calor reclamar
Tristeza esquisita
Sabia bem a razão
Tombou no chão
Espirrava lágrimas em profusão
Pois solidão não se aguenta sem chorar
No litoral o Baixo era pessoa mudada
Flertava com o deslumbre
Sorvia do coco água adocicada


Mas o homem é bicho inquieto

Na praia tropeçou
A risada se espalhou
Rubor
Humilhação
Brado de irritação
“Que malícia é essa de meus pés afundar?”
“No sertão pisava firme no chão”
Recordação
Comparação
Dum lado areia mole e de cor aguada
Doutro a terra dura, quase avermelhada
Relembrar é querer a saudade chamar
É o que dizem: o mar causa enjoo
E o Baixo enjoou do mar
O sol se punha
Até quem manda merece descansar
Céu amarelado
O Alto viu a figura do Baixo se aproximar
Abraço com aperto forte
Deu nó em garganta de calango curioso
Voltou-se a tempo idoso

Mas o homem é bicho rancoroso

Dizer que tudo era como antes
É dar conclusão rasa a assunto custoso
Algo reclamava ajuste rigoroso
Voz interior atiçava lide
Cobrava postura de revide
Sentença pronta e acabada
O Alto partiu sem previsão de parada
Cada qual que pague pelo mal que causou
Deixou pra trás o Baixo
Pra experimentar dor de solidão que provocou
Passo acelerado
Chutava pedra atrevida à sua frente
Percorreu trilho alongado
Segunda voz com recado urgente
“Se o Baixo inaugurou solidão por condenação”
“O Alto ia para a segunda vez por falta de perdão”
Dos rasgos do terreno saltava pó
Um dilema precisava solucionar
Parou
Fez menção de se virar


Porque o homem sempre será bicho de não ser só

O homem é bicho de não ser só

Havia no sertão um lugar desabitado. Tão ermo, enfadonho e desolado, que por lá ainda se esperava a chegada de Cabral. Fazia silêncio absoluto, a ponto de primeiro amedrontar e depois enlouquecer até quem tenha predileção pelo sossego. Pois assim parecia que o tempo não passava, ou nem sequer existia. E só se notava que ele existia e passava, por causa da escuridão da noite que rendia o claro do dia. E vice-versa. Na falta de alguém que mandasse, quem reinava mesmo era o sol, que no alto da sua autoridade esturricava tudo, fazia o chão arder e não é qualquer nuvem que ele deixava passear sobre a paisagem. Não tinha culpa. Afinal, se nasceu quente, dourado e explosivo, não se queira que ele pudesse refrescar.

Mas o homem é bicho teimoso.

Seja em solo árido ou pedregoso, sempre há de aparecer pessoa com ânimo de fazer morada, que nem mato, capim e maria-sem-vergonha, que se dão a brotar em qualquer canto. E do nada surgiu uma dupla, que parecia há muito tempo errante. Por falta de olhos que os cercassem, ninguém os viu chegar, a não ser que os calangos possam ter a qualidade de testemunha. Na falta de melhor nomenclatura, convém que Alto e Baixo lhe caibam como alcunha.

Arquitetaram choupana sem teto, de modo a enxergar o céu escuro antes de dormir. Tentavam plantar de tudo, mas só comiam o pouco que a terra se dispusesse a produzir. E não era raro que faltasse alimento. Quando era assim, não sobrava história que calango pudesse contar. Tudo era questão de se adaptar, e da adaptação chegou-se à rotina, que evoluiu para a afeição ao lugar. Se trabalho é ocupação, o Alto e o Baixo trabalhavam até o cansaço dar aviso de chegada, e era menos pela sobrevivência que precisavam manter, e mais para afastar o tédio. Alto e Baixo levavam uma vida de viver só por viver, o que para eles não deixava de ser o melhor sentido que a vida deveria ter.

Diferente das nuvens, o vento, sempre ligeiro e expansivo, circulava livremente sem que fosse incomodado, e isso em decorrência da artimanha de se aproveitar da sua falta de aparência. E num dia em que estava especialmente disposto, levou para lá um objeto diferente que planava suavemente, dançando ao sabor de redemoinhos. O Baixo estranhou a visita, e, com um pulo certeiro, apanhou a coisa suspensa. Quando se deu conta do que se tratava, pôs-se a esbugalhar os olhos, com sintoma de hipnose aguda. Segurava um retrato do mar.

O Baixo passou a carregar o retrato para onde quer que fosse. Bem aos poucos foi nascendo reflexão persistente. Uma ideia tomou de assalto seu pensamento. Era tal como coceira. Ia e vinha sem parar e cada vez que voltava aparecia com mais sustância. Passou a andar arqueado com o peso da perturbação. E num dia, muito de repente, postou-se em paralisia, inerte como tronco enraizado. Sacou o retrato, posicionou-o à sua vista e, sem aviso do que ia fazer, deu um grito de criar eco, ecos e mais ecos, esvaziando todo o ar que tinha guardado nos pulmões. “Eu não fico mais aqui.” “É na direção do mar que eu quero ir”. Partiu com urgência, sem fazer aceno de despedida.

O Alto não demonstrou reação de se ter abalado. Resignou-se com a imposição do destino, exibindo indiferença que quase esbarrava na altivez. Logo pensou que, se antes eram dois e agora era um, mais comida haveria de sobrar. Deu de ombros e se voltou ao que lhe era rotineiro.

Mas o homem é bicho de não ser só.

Depois que o tempo se arrastou, dando mostras de que a coisa mudou, o Alto se aborreceu de só ter sua consciência para prosear. Pior é que já não havia quem escutasse sua reclamação do calor. Não tinha paz para dormir, tamanha era a aflição de abandonar o corpo desacordado em redor deserto. Nem mais se deleitava com seu prazer de matar sede com água de moringa. Perdia a fome. Sim, tinha desinteresse de comer sua parte da comida e a outra parte que também lhe cabia porque sobrava. Tornou-se dono de tristeza esquisita, e sabia bem a razão. Com o sacrifício dos joelhos, tombou no chão de terra batida e começou a espirrar lágrimas em profusão. Chorou feito criança pirracenta, porque a solidão é coisa que não se aguenta sem chorar.

Enquanto isso, lá pelas bandas do litoral, o Baixo era pessoa transformada e já flertava com o deslumbramento. Conhecia gente, sorvia do coco as delícias da água adocicada, saboreava carne de peixe e salgava-se em banhos demorados.

Mas o homem é bicho inquieto.

Caminhando pela praia, o Baixo desequilibrou-se, tropeçou e caiu de um jeito que foi natural a risada se espalhar. Com o rubor da humilhação, levantou depressa, e olhando para a areia bradou com irritação: “mas que malícia é essa de afundar meus pés? Lá de onde eu vim, tinha a confiança de pisar firme no chão, sem o cuidado de evitar o infortúnio de cair.” E depois disso, o Baixo começou a exercitar a comparação. De um lado a areia mole e de cor aguada, do outro a terra dura e de cor marrom-forte, quase avermelhada. Daí se vê que o Baixo ia pelo caminho de cultivar recordação do seu ponto de origem, e é sabido que amontoar lembrança é querer chamar a saudade, que quando chega sabe muito bem marcar presença. É o que dizem por aí: o mar causa enjoo, e o Baixo enjoou do mar.

O sol já se punha, porque até quem tem poder de mando merece descansar. No horizonte pintado de cor-de-abóbora, o Alto avistou a figura do Baixo se aproximar. Os dois correram um contra o outro e se abraçaram com aperto forte, e foi tão forte que rolaram no chão, levantando nuvem de poeira. Aquilo foi de dar nó em garganta de calango curioso. Tudo voltou ao tempo de antigamente.

Mas o homem é bicho rancoroso.

Dizer que tudo voltou ao tempo de antigamente é querer dar conclusão rasa a questão profunda. O Alto tinha no seu íntimo algo desarrumado, reclamando ajuste premente. Memórias sobre a desgraceira do desamparo eram como filme de reprodução repetida. Uma voz interior atiçava com injúria irritante: “tonto, frouxo e paspalhão”. Essa mesma voz, teimosa que era, passou a cobrar postura de revide. Por aí é que a inteligência do Alto forjou julgamento fundado no preceito de que cada qual tenha que dar paga pelo mal que causou. A sentença estava pronta e acabada. O Alto partiu sem rumo e sem previsão de parada. Deixou para trás o Baixo, que estava condenado a experimentar a mesma dor da solidão que um dia provocou.

O Alto seguiu caminho com passo acelerado, chutando pedra atrevida que parasse à sua frente. E desse modo percorreu trilha alongada, até quando uma segunda voz anunciou advertência: “se o Baixo inaugurava solidão, por causa de condenação, o Alto já ia para a sua segunda vez, e por causa de orgulho ou ausência de perdão.” Então, começou a andar em marcha diminuída. De resoluto passou a vacilante. Agora já quase nem andava. Braços jogados para trás em entrelace nas costas e olhar fixo nos rasgos do terreno. Por ali se viu em grande dilema que precisava solucionar. Parou, fazendo menção de se virar.

Porque o homem sempre será bicho de não ser só.  

Os olhos de Sancha

Em acréscimo ao muito do que já se discutiu sobre a verve psico-enigmática presente em Dom Casmurro, ouso expor minha particular percepção, sobre a qual é possível que alguém já tenha abordado, com melhores credencial e técnica. Seja como for desculpo-me antecipadamente caso não me faça original. 

Controlado pela genialidade machadiana, Bentinho, um dos mais intrigantes narradores da nossa literatura, captura e depois direciona a atenção do leitor para o que parece ser apenas o relato objetivo das memórias da sua vida. No entanto, lá pelos três quartos do livro instaura-se uma mudança que sacode toda a estrutura narrativa até então vigente. E é o próprio narrador que anuncia a tal mudança:

Tudo acaba, leitor; é um velho truísmo, a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura dura muito tempo.   

Nesse aspecto, há uma cena que funciona como o divisor de águas da trama: Bentinho/Capitu e Escobar/Sancha – os casais inseparáveis – estão reunidos em mais um de seus corriqueiros encontros. Escobar aproxima-se de Bentinho e lhe promete anunciar, no dia seguinte, um projeto para os quatro. Logo em seguida é a vez de Sancha se aproximar de Bentinho. Pedindo segredo, ela lhe confidencia o que seu marido apenas deixara no ar. O projeto era a viagem em que os quatro iriam juntos à Europa. Deixemos a parte principal da cena a cargo do próprio narrador:

Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu, graças às relações dela e Capitu, não se me daria beijá-la na testa. Entretanto, os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraternais, pareciam quentes e intimidativos, diziam outra coisa, e não tardou que se afastassem da janela, onde eu fiquei olhando para o mar, pensativo. A noite era clara.
Dali mesmo busquei os olhos de Sancha, ao pé do piano; encontrei-os em caminho. Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros, uns esperando que os outros passassem, mas nenhuns passavam. Tal se dá na rua entre dois teimosos. A cautela desligou-nos; eu tornei a voltar-me para fora. E assim posto entrei a cavar na memória se alguma vez olhara para ela com a mesma expressão, e fiquei incerto. Tive uma certeza só, é que um dia pensei nela, como se pensa na bela desconhecida que passa; mas então dar-se-ia que ela adivinhando... Talvez o simples pensamento me transluzisse cá fora, e ela me fugisse outrora irritada ou acanhada, e agora por um movimento invencível... Invencível; esta palavra foi como uma bênção de padre à missa, que a gente recebe e repete em si mesma.        

A partir dessas reflexões abrem-se comportas que inundam o texto de uma subjetividade avassaladora. Bentinho descreve o modo como interpreta as atitudes de Sancha, conforme suas próprias conclusões, as quais certamente podem não corresponder à realidade dos fatos. O que temos é a versão do narrador, entre tantas outras possíveis. Caso fosse lhe dada a oportunidade do contraditório, Sancha bem poderia dizer que a troca de olhares foi ocasional, sem qualquer conotação que excedesse os limites da amizade existente entre os dois. Note-se que, logo depois, o próprio Bentinho reconsidera sua impressão inicial:

Tinha já comparado o gesto de Sancha na véspera e o desespero daquele dia; eram inconciliáveis. A viúva era realmente amantíssima. Assim se desvaneceu de todo a ilusão da minha vaidade.

O episódio mencionado acima é um componente importante do contexto em que começam a ganhar corpo as suspeitas de Bentinho quanto ao suposto caso extraconjugal entre sua mulher Capitu e seu melhor amigo Escobar. E é novamente um olhar que orienta as suas ilações. Um olhar que Capitu direciona a Escobar desencadeia uma série de angústias que evoluem desde a desconfiança até a mais inexorável das certezas, cujo símbolo é o fato de que Ezequiel, filho de Bentinho e Capitu, carrega consigo, à medida que cresce, a aparência de Escobar cada vez mais inequívoca e perturbadora. Chega-se então à inevitável pergunta: se Bentinho já havia se enganado antes, dando interpretação torta ao comportamento de Sancha, por que também não estaria errado em relação ao julgamento que aplica a Capitu, sobretudo se levado em conta o confesso ciúme que sempre o rodeou? 

De qualquer forma, teria sido magnífico se Machado de Assis pudesse dar voz a Capitu em um romance no qual prevalecesse a outra versão. Poderia servir para esclarecer nossas dúvidas. Ou então nos confundiria ainda mais.

Momento único


Ela completa trinta e seis anos, dois meses e três dias. Mais exatamente três dias e meio. Ele é mais novo. Tem vinte e nove anos, dez meses e treze dias. Mais exatamente treze dias e duas horas. Ambos poderiam comemorar uma espécie de aniversário corriqueiro, que se mede pelo espaço de minutos, horas ou dias.

Eles estão prestes a dividir um momento único.

Se ela acordasse um segundo mais cedo ou um segundo mais tarde, se não diminuísse o passo para examinar o preço de um sapato exposto na vitrine da loja, se escolhesse deixar os cabelos soltos, ou se ele resolvesse sua dúvida escolhendo os sapatos negros e não os marrons, se ele tivesse a atenção atraída por uma notícia pendurada na banca de jornal, se ele andasse a uma velocidade um pouco menor ou um pouco maior que seja, o modo como se encontrariam seria completamente diferente. Ou talvez nem sequer teriam se encontrado.

Dividiram um momento único que, do jeito como foi, nunca mais irá se repetir.  Será impossível refazer a peculiaridade dos gestos, o mesmo tom de voz, a sequência de palavras escolhida, a maneira como os olhares se encontravam e se desviavam alternadamente. O tempo em que se encontraram terminou. Ele ergue a bolsa enquanto guarda o troco na bolsa da calça. Ela lança sua voz ao ar: “próximo”.