Depois do cinza

Ali estava uma tela impossível, mas alguém conseguia desenhar na superfície irregular, eram traços, cores, efeitos, técnicas que venciam chapiscos e infiltrações. Isabela, garota sempre ocupada com fones minúsculos que lhe invadiam os ouvidos, era a única a se impressionar com aqueles desenhos, afinal um muro de cemitério não é dado a receber olhares que demorem tanto. Na verdade, nem era a única. Todas as vezes antes de fazer subir e descer o rolo ensopado de tinta cinzenta, o zelador da prefeitura se demorava em contemplar o desenho, reparava cada detalhe como se se despedisse. Isabela não se importava quando dava de cara com o muro pintado de cinza, sabia que em breve haveria de se encantar com um novo desenho. Até gostava que fosse assim, a espera tinha sabor que alegrava parte do dia. Depois, Isabela sentiu crescer uma força que lhe exigia invadir aquele mistério. Arriscando-se entre as artimanhas da madrugada, passou a fazer vigília em frente ao cemitério e eis que o flagrante se deu na terceira vez. Lá estava ele a tratar o muro como relíquia. Isabela reconheceu as galochas, os cabelos cheios, a postura torta. E o jeito de contemplar o desenho. Um artista que vivia de renovar sua obra. O zelador da prefeitura era assim. 

Os frutos

Na subida da Alameda Isaac Newton, os braços dela envolviam o pacote pardo de compras, um abraço forte feito os de saudade. Dentro do pacote, agitação. Uma maçã foi expulsa pelo rebuliço das frutas, quicou, rolou, desceu ligeiro, a velocidade em aceleração exponencial até encontrar freio na lateral de uma bota. A devolução foi feita entre sorrisos acanhados e olhares intermitentes. Vieram os filhos, os netos, já há inclusive bisnetos. É a árvore genealógica que nunca existiria não fosse o declive da Alameda Isaac Newton.

Streets of Philadelphia

Ela chega em casa e flagra a si mesma repetindo os mesmos gestos de sempre, é como se fosse um dia só, que se repete, se repete, o mesmo cansaço, o mesmo desânimo, as mesmas chaves atiradas sobre a mesa de vidro, é o mesmo barulho escandaloso, não encontra sentido, não enxerga saídas, mas ligar o rádio pode ser uma boa ideia, quando ouve música costuma se sentir um pouco melhor, músicas da rádio FM porque aí são músicas aleatórias, entre uma música e outra um fino lapso de expectativa, é o máximo de esperança que consegue ter, logo essa música, não, essa música não, ela é triste, hoje era a última música que ela queria ouvir, foi a trilha sonora de um filme em que o Tom Hanks, novinho, magrinho, morreu de AIDS, ela pensa, há pessoas sofrendo de AIDS, de câncer, de febre amarela e eu aqui com a minha falta de ânimo, é o tipo de comparação que não funciona, não funciona sentir-se culpada, ela ainda está mal, talvez pior, estava triste e agora está com a consciência em xeque, ela corre até o celular e o desliga, não aguenta mais a sensação idiota de esperar a vibração da mensagem que nunca chega, a vibração da ligação que há uma semana não irrompe e não a faz correr para atender, alô, tudo bem? Como foi o dia? O teclado dessa música é tão melancólico, soa tão depressivo, ela ainda não desligou o rádio porque ainda precisa ter coragem de enfrentar a merda de uma música triste, o telefone fixo toca, ela lamenta ter se esquecido de deixar fora do gancho, e se não for quem ela quer que seja, e se for quem ela quer que seja, ela se pergunta se deve atender, hesita, atende, não atende, avança, recua, e se o telefone nunca mais tocar, já tocou demais, está prestes a parar de tocar, ela atende, um engano.  

As gentilezas

Nos fundos  da rodoviária do Rio, o guarda de trânsito esbraveja contra a motorista perdida, que lhe pedira informação. Ao lado da cena, o turista assiste a tudo, na camisa dele está escrito: gentileza gera gentileza. 

O uniforme do herói

Descer a escada rolante do shopping é tarefa das menos marcantes. Ninguém, quando entregar a cabeça ao travesseiro e conferir o saldo do dia, terá lembrança do exato instante em que descia a escada rolante de um shopping. A não ser que lá embaixo desponte o zelador tomado pela agitação de quem enfrenta a urgência. Num gesto rápido, lança mão da habilidade de perito e aciona o mecanismo que imediatamente para a subida dos degraus. Só depois percebo que ao meu lado, na escada de subida, dois idosos estão caídos. Como terá sido isso? Uma senhora tem o corpo enviesado entre os degraus, um senhor está logo atrás. Impressiona que os dois mantenham tanta calma. Não se debatem, não gritam por socorro, estão deitados com olhares direcionados para cima como se descansassem numa cama. O bombeiro, a moça da loja de doces, o rapaz da perna tatuada, logo se amontoa muita gente ao redor dos dois. Durante o resgate, ambos permanecem serenos embora haja dificuldade de se porem novamente em pé. Ali está a comovente resignação que só vem com o tempo.   

Já aos pés da escada e ainda estranhando ter presenciado tamanha eficiência, chego perto do zelador e lhe digo que sem ele tudo seria pior. Sem abandonar a modéstia, ele diz que as serras no topo da escada rolante poderiam ter ferido gravemente os dois idosos. Reparo no uniforme que exibe o emblema do shopping e me despeço dando-lhe parabéns, ao que o zelador agradece encabulado. Mais à frente me deparo com o cartaz do cinema. Dois super-heróis estão vestidos com capas, roupas coloridas e máscaras. De imediato o que me vem ao pensamento é que nossos heróis, heróis de verdade, usam uniformes discretos. 

Assessoria de natal

Distraída com a tela do celular, a assessora do papai Noel negligencia a fila já bem comprida. Ele próprio, o assessorado papai Noel é quem devia repreendê-la, mas se mantém indiferente, está prostrado na poltrona vermelha, onde também se entretém com o celular. Um choro agudo faz a assessora do papai Noel despertar do sonho tecnológico, ela guarda o celular e se põe a enfrentar o batente, pega pela mão a criança birrenta e a leva até o colo do papai Noel, que imediatamente encontra abrigo para o celular. Papai Noel arrisca algumas frases clichês, foi bonzinho durante o ano?, o que vai querer ganhar de presente?, mas nada acalma o choro da criança. A mãe, sem mais argumentos, sem mais paciência, sem mais tempo, contenta-se em retratar o filho com careta de menino chorão. Aliás, na fila, muitas crianças protestam por meio do único recurso de indignação que lhes cabe. É até compreensível, choram por não querer proximidade com a criatura extravagante que esconde a cara por trás de tufos de algodão. Aí está só o início das incompreensões e desentendimentos entre pais e filhos que durarão pela vida afora.

A assessora do papai Noel dedica novamente atenção exclusiva ao celular. A maquiagem exagerada não disfarça a idade de quem ainda nem chegou à adolescência. Sua fantasia formada por gorro, luvas, meias longas transmite incômodo pela sensação de que deve provocar um calor dos infernos. Se bem que o ar condicionado do shopping traz algum alívio, ao que parece tenta simular a temperatura de onde veio o nosso papai Noel. Ao olhar para o lado, uma expressão de enfado. A fila não para de crescer.

Fim do dia, em meio a pessoas carregando bolsas de compras, a garota sai do shopping ainda fantasiada. Não fosse tempo de natal, a cena soaria estranha. Enfim, contexto é tudo. De repente, acelera o passo, o que a espera não são renas nem trenó, entra no ônibus e por sorte consegue lugar junto à janela. Mal se senta e já está conferindo as novidades na tela do celular. Aquele ônibus, cheio e barulhento, não tem ar condicionado.  

Arquibancada fúnebre

Lá em cima, há no beiral do viaduto um amontoado de gente.
Todos querem ver o corpo do motociclista.
É a arquibancada com vista para a morte.

A imagem que ofende

O Bem-te-vi choca-se insistentemente contra o vidro não por estupidez.
É que sua imagem aprisionada lhe ofende sobremaneira.

A cada um a imortalidade de seu tempo

Observo o quadro que exibe a fotografia em preto e branco de uma cena congelada desde o início do século passado. 1910, mais precisamente. Há muitas pessoas na Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, centro do Rio de Janeiro. Vestem as roupas da época e olham curiosas na direção de quem lhes aponta a então moderna máquina de fotografar. A constatação é óbvia: todas as pessoas retratadas na fotografia já morreram. Outra constatação: absolutamente nada se pode saber dessas pessoas. Do mesmo modo, na cena atual de uma cidade movimentada qualquer, as pessoas que transitam agitadas pra lá e pra cá daqui a cem anos obviamente não existirão mais. E, a não ser que sejam cientistas que descobriram a cura de alguma doença, ou artistas geniais, ou modelo do artista genial (tal Monalisa), ou generais vitoriosos em guerra, ou membros da academia de letras, todos estarão desaparecidos da história para todo e sempre. É assim, milhares e milhares de pessoas passaram e passarão por este mundo e nada se pode nem poderá saber delas. Mas, claro, é caso de se admitir divergências, e nesse aspecto duas obras cumprem o papel de apresentar outras perspectivas sobre o assunto.  

Agora traduzido no Brasil, o livro “Stoner”, do norte-americano John Williams, acompanha toda a trajetória de William Stoner, que, nascido no campo, transfere-se para a cidade grande, cursa a universidade, torna-se professor, sofre pela morte dos pais, casa-se, tem uma filha, separa-se, aposenta-se e ... morre. O mérito do livro é ter extraído emoção do relato de uma vida comum, é ter iluminado o protagonismo de um homem afastado de qualquer proeminência. É como se o livro pudesse ter retratado a minha vida, a sua vida, a vida de um bancário, de um lojista, de um caminhoneiro.  

E é de um caminhoneiro que trata o documentário “Um homem comum", de Carlos Nader. A vida de Nilson de Paula é acompanhada por cerca de vinte anos, período em que são examinadas as ocorrências ordinárias do convívio familiar, tais como a dor do luto e a relação conflituosa entre pai e filha. Também aqui, a obra artística joga luz sobre uma vida que se confunde com tantas vidas ao redor e que certamente passaria despercebida não fosse os holofotes das câmeras. Nilson de Paula, o homem comum, é, antes de tudo, dono de uma vida especial.  

Enfim, as duas obras querem dizer que a vida de qualquer um daria um livro ou daria um filme. As duas obras demonstram que, usando uma adaptação torta de Vinícius de Moraes, cada um é imortal a seu tempo.   

O vento e as asas

Gaiola Quebrada. Canário fugido. "Mas ele era tão sossegado..." Quando o vento chama, nenhuma asa se aquieta na submissão.

Quando Regina Casé volta?

Notas sobre o cinema brasileiro: quero que nossos filmes tenham variedade para muito mais do que a intensificação das comédias fáceis, sinto pontinhas de inveja em relação à produção cinematográfica dos hermanos argentinos, comemoro quando me vejo surpreendido com um filme brasileiro sobre o qual não tinha grandes expectativas. Tudo isso significa que torço do fundo do coração para que o cinema nacional deslanche de uma vez por todas.

Mais especialmente quanto a um filme que me tenha feito comemorar, "Que horas ela volta?", de Anna Muylaert, é uma daquelas obras artísticas que nos fazem passar a semana inteira refletindo sobre sua mensagem, e que mensagem!

Val mora no quartinho dos fundos da mansão em que trabalha como empregada doméstica, mantendo com seus patrões relação de verdadeira vassalagem. Descontada a diferença de cento e poucos anos, é como se Val fosse a aia da família, nisso incluindo a condição de ter substituído as funções da patroa na criação do rebento da casa. Nem sequer um copo d´água, Zé Carlos, o patrão em crise existencial, é capaz de tomar sem que tenha sido servido por Val. E aí está o ponto sensível do filme. A telona nos convida a verificar no que se tornou o país em cuja maior parte da existência adotou a escravidão como força produtiva. Sim, é uma cicatriz que não se cura de uma hora para outra, é um prejuízo social e moral difícil de contornar. A escravidão nos deixou como herança o costume do servilismo. Não à toa ainda há quem faça cara feia para a regulamentação dos direitos da profissão de empregada doméstica, não à toa persiste a invisibilidade atribuída a certo tipo de trabalhadores, não à toa nossos governantes se encastelam em palácios, entupindo-se de regalias que os mantenham em seus pedestais de gente diferenciada.

Há alguma perspectiva de evolução para uma sociedade tão problemática? Quem nos traz a resposta é Jéssica, o elemento modificador da trama. Jéssica é filha de Val com quem não convive há muito tempo. Para prestar o vestibular, hospeda-se no quartinho dos fundos da mansão, passando a questionar a relação de intensa subserviência suportada pela mãe. Emblemática é a cena em que se depara com o quarto de hóspedes amplo, decorado e ocioso. O que lhe vem à mente é instantâneo: se há na casa um quarto confortável e ocioso, por que ela e sua mãe não estão ali em vez de estarem alojadas no quartinho apertado dos fundos? Contudo, para Val, essa é uma hipótese que nunca lhe poderia ter ocorrido, considerando a ideia consolidada de sua inflexível submissão. O fato é que Jéssica é de um tempo em que quartinhos de empregada começam a não fazer mais sentido, assim como não faz mais sentido qualquer relação servil. Se quisermos chegar ao patamar de países que já alcançaram equilíbrio social, é fundamental, primeiro, admitirmos o tanto que ainda temos, sim, de espólio dos tempos escravocratas. O olhar questionador de Jéssica é o mesmo olhar que o filme pretende que o espectador tenha.

A atuação de Regina Casé como a empregada doméstica Val merece parágrafo à parte. É um personagem difícil, a começar pelo sotaque que ao menor descuido pode resvalar na caricatura típica das novelas. Mas tamanha entrega e tanto capricho fazem Regina Casé superar esse detalhe. É uma atriz que se desloca brilhantemente entre nuances de humor e drama. Desde o filme "Eu, Tu e Eles" não se tinha a oportunidade de apreciar um papel que lhe exijisse o melhor de sua atuação. Regina Casé é imprescindível ao cinema, impondo-se perguntar: quando ela volta?

Pois então ainda dá tempo de assistir ao belo filme de Anna Muylaert. Corra, vá antes que o próximo super-herói tome de assalto todas as nossas salas.

Que Castro Alves nos ajude a ter palavras

Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, Se eu deliro... ou se é verdade, tanto horror perante os céus!? Ó mar, por que não apagas co'a esponja de tuas vagas, do teu manto este borrão?

Nosso baiano Castro Alves assim se referia aos navios negreiros, a tragédia que vinha pelos mares. Depois de tanto tempo, são versos que cabem como luva para mais uma tragédia vinda do mar. Lá está o pequeno menino sírio, deitado, recém-trazido pelas ondas. Após conduzi-lo até a firmeza da terra, é como se o mar quisesse dizer “vejam só o que vocês fizeram.”

A humanidade produz mais uma cena daquelas que para todo e sempre nos servirá de assombração. É o caso de se lembrar de outros retratos cruéis. A menina vietnamita que corre queimada e assustada, ou o menino africano, sem forças, esquálido, observado por urubus oportunistas. E agora mais uma fotografia-ícone: Aylan Kurdi, vestido em suas encharcadas roupinhas de garoto, jaz com o rostinho enterrado na areia úmida. Todas essas fotos têm como mesmo componente o sacrifício de crianças. São elas as porta-vozes do tanto de miséria que ainda há em nós.


Que Castro Alves nos ajude a ter palavras: Fatalidade atroz que a mente esmaga! Extingue nesta hora o bringue imundo, Mas é infâmia demais!... Da etérea plaga levantai-vos, heróis do Novo Mundo!

A impaciência dos pacientes

Há dois tipos de médicos: os que se atrasam porque estão cuidando de pessoas mais doentes que você, e os que se atrasam porque são semideuses. Doutor Nazaré pertence à segunda categoria. Sente prazer exultante quando adentra a antessala do consultório e se depara com o abarrotar de pacientes impacientes.

Foi assim durante toda sua vida clínica até o dia em que, surpresa!, não havia sequer um único paciente à sua espera. Dona Leocádia, onde estão todos os pacientes? Não sei Doutor, não apareceram, não remarcaram. A partir de então os dias correram sem haver pacientes que o Doutor Nazaré pudesse atender. Será que ninguém mais se adoenta nesta cidade?, resmungava o médico.

Agora sempre ao entrar no consultório, só o que há pela frente é a visão de uma ociosa Dona Leocádia. Passado um mês, Doutor Nazaré enfim parece ter encontrado uma solução: Dona Leocádia, precisei rever meus conceitos. Tome nota aí. Vamos trocar os sofás por outros mais confortáveis, contratar serviço de TV a cabo, inaugurar música ambiente, trocar a qualidade das revistas. Ah, claro, veja como instalar também o wifi. Os pacientes haverão de voltar aos montes. Dona Leocádia olhou o relógio. Naquele dia, Doutor Nazaré havia chegado duas horas após o horário em que normalmente se iniciavam as consultas. Enquanto anotava a lista de providências, Dona Leocádia planejava como procurar outro emprego.

A banda passa, a música fica ou Clair de Lune ao fundo

A banda não passou. As pessoas é que passam, mas há quem pare para vê-la. No domingo de feira, a banda está instalada no vão do prédio da biblioteca. Não é do tipo de banda que passa, é uma banda imóvel. Todos os músicos estão dispostos em cadeiras. O maestro tem muitos anos de idade, tem muitas debilidades. A batuta é o que o mantém de pé, a batuta é o que lhe mantém a vida.
Entre saxofones e clarinetes, o som da bateria é o que mais se destaca. Sinto curiosidade em examinar a técnica. É o que me leva para próximo do setor de percussão, a última fileira de músicos. Enquanto toca, o baterista conversa, olha para os ouvintes. É mais ou menos parecido com o que faz Ronaldinho Gaúcho nas ocasiões em que olha para um lado e, num lance de habilidade, toca a bola para o outro.
Há muitas ocorrências ao redor da banda. Tão pequeno que os tênis parecem engolir- lhes os pés, o menino dança, atrai atenções, atrai também a mira do celular do avô. Ignora o fato de estar sendo filmado, continua a dança, ainda não tem idade para se preocupar com poses, só o que quer é dançar. A mãe se aproxima, agora são dois a dançar do mesmo modo. É a vez de Frank Sinatra. Há também outros que dançam aos pares. De repente o cachorro levanta as orelhas e as mantém bem erguidas. Cochicho com meus botões a constatação de que Frank Sinatra é bom também pra cachorro. A primeira impressão é quase sempre uma ingenuidade. O que faz o cachorro redobrar atenção é a aproximação de outro exemplar da espécie, que só está de passagem, não arrisca desagradar quem está ali desde o início. E a banda continua. My Way alcança o ápice, é aquele ponto da música em que as pessoas suspiram, mexem a cabeça em sinal positivo. Como são bons, diz a emocionada senhorinha. Aplausos.

No domingo à tarde, o vão do prédio da biblioteca está vazio. Não há música, só o que provoca barulho é o desmonte das barracas de feira. Onde estará o menino dançante? E o cachorro? E todas as testemunhas do espetáculo? Faz tempo todos já se foram. É que tudo passa, tudo haverá de passar. A banda, inclusive a banda imóvel, também passa.

A quarta luz

São quatro as luzes do semáforo:
- vermelha;
- amarela;
- verde;
- lua cheia.