A inovação dos métodos

"Por Deus, um dinheiro para o almoço."
"Poxa, amigo, saí de casa sem dinheiro."
"Aceito débito ou crédito."

O mundo pesa

Não se admira ter caído de cara no chão.
Carrega o peso do mundo inteiro nas costas. 

Só no frio

A garota passa aninhada no próprio abraço.
Reconcilia-se consigo mesma só no frio.

O mestre da inflação

O banquinho é minúsculo, servindo sob medida para suportar quem está sentado nele. Não passa muito do metro e meio, fumante, boné surrado, camisa polo, calças folgadas, lá está o velho ao lado do calibrador. Não é imagem dada a ser vista por tanta gente, só pelos que vão ao posto de gasolina aos domingos pela manhã. É só um carro se aproximar, e o velho do calibrador se levanta do banquinho, agita-se, exala entusiasmo por ainda ter alguma utilidade. Outros detalhes se revelam a quem se aproxima dele. Nos braços, na cara, não há espaço sem ocupação das rugas. Entre a boca e o nariz, espalha-se a ferida que nunca cicatriza. A fala embolada traz suspeitas sobre a ausência de muitos dentes. De mangueira em punho, o velho do calibrador gosta de deixar as coisas às claras:
“Não sou funcionário do posto. O que faço é só um bico pra conseguir comprar o arroz.”
O velho do calibrador é generoso em dividir os meandros da sua especialidade. Ensina a medida exata de calibragem para cada tipo de carro, adverte sobre a importância de manter o estepe calibrado, manuseia com cuidado o pino das rodas, afinal, conforme faz questão de explicar, sem os pinos a sujeira entra e entope a passagem do ar. Mas há os motoristas que dispensam o serviço, preferindo calibrar os pneus por conta própria. Nessas ocasiões, o velho do calibrador cruza os braços e se afasta constrangido. É o tipo de tristeza que provoca desabafo:
“Não sabem que eu não sou funcionário do posto, não sabem que não tenho carteira e preciso de uma ajudinha.”
É isso: tirar-lhe a mangueira de calibragem é matá-lo um pouco. Não é exagero, o velho do calibrador ao inflar os pneus acaba por inflar também a própria vida.
Nada como um carro após o outro. O velho do calibrador se surpreende com a nota de cinco reais que lhe chega às mãos em dobras, discreta. O sorriso espontâneo deixa ver a falta dos dentes. O velho do calibrador comemora:
"Hoje posso comprar também o feijão."

Dom Casmurro chileno

Quem não conhece o quadro A Origem do Mundo, de Gustave Courbet, e se propuser a procurá-lo no Google, provavelmente haverá de sentir um sobressalto. A partir dele se desenvolve o livro de mesmo nome em que o médico chileno Patrício Illanes percebe-se atormentado pela desconfiança de que sua mulher o tivesse traído com seu recém-falecido amigo.
Qualquer semelhança com o enredo de Dom Casmurro não é mera coincidência. O autor Jorge Edwards já se dedicou a um estudo sobre Machado de Assis e confessadamente diz ter se inspirado na obra do escritor brasileiro para compor a aflitiva dúvida de seu personagem. Aliás, aqui está mais um exemplo a confirmar a importância de Machado de Assis para além das nossas fronteiras.
A trama é ágil, menos por falta de sofisticação narrativa e mais por habilidade técnica do escritor. Nesse aspecto, Mario Vargas Llosa, que assina o posfácio do livro, chama a atenção para a engenhosidade com que foi narrada a morte do personagem Felipe Díaz.
Diferente de Dom Casmurro, o livro de Jorge Edwards não pretende embrenhar-se pelos labirintos das versões enigmáticas. Ao final, ao menos para nós leitores, a questão se resolve sem espaço para dúvidas. E o modo como se revela a verdade é também um grande atrativo do romance. O leitor saberá por quê.  

1º de janeiro


Se me pergunta qual dia do ano é meu preferido, respondo que é o primeiro, porque o barulho dos fogos já não se ouve como no dia anterior, está tímido, longínquo, porque gosto de números ímpares e gosto do número 11, porque parece ser a folha de um caderno novo, no qual dá pena de escrever, porque provavelmente cometerei o engano de grafar o número correspondente ao ano anterior, porque é um dos únicos dias em que lá fora percebemos o que é o silêncio, porque é feriado de verdade, nada de concessões ao lucro desarvorado, porque ele é o mais próximo do final que já acabou e mais distante do final que ainda está por acabar.

A seca e o raso

Então agora temos seca. Agora? Mas e o que sempre tivemos no Nordeste não é seca? Mas lá a coisa é diferente. É? É. O cactus, o sertão alaranjado, os ossos de boi esturricados sob o sol, tudo isso é paisagem regional. Sim, é coisa da paisagem, é o Saara brasileiro. Ah, bom. Mas se agora temos seca no Sudeste, é hora de entender o que há. Sim, o caso de paisagem regional aqui não cola. Não cola mesmo. Bem, então agora vão se mexer e entender o que há. Não sei, temos quinhentos anos e estamos sempre perdidos com essa coisa de entender o que há. Falaram disso no debate eleitoral, será que agora vai? Não sei, tudo é sempre pior do que se diz no debate eleitoral. Soube que o desmatamento na Amazônia pode estar por trás da seca no Sudeste. Isso mesmo, também soube. Repare a comparação: cento e oitenta milhões de campos de futebol devastados. Nossa, nessa área desmatada caberiam um bilhão, novecentos e oitenta milhões de jogadores. Será que sobra espaço pra torcida? Já, já. Que interessante essa coisa de rios aéreos. Sim, eles vêm lá da Floresta Amazônica e se deixam despejar em forma de chuva em cima do Sudeste. É um presentão. Verdade, mas a mamata vai acabar. Estranho, ninguém disse isso no debate eleitoral. Ah, mas o debate eleitoral é tão raso quanto a represa de Guarapiranga. Que clichê. Que clichê, é verdade. Acho que o Saara brasileiro vai crescer. Vai sim, vai virar paisagem nacional. Nunca mais teremos quinhentos anos para entender o que há. Não, nunca mais.

A matemática do ébrio

Ele usa chapéu de vaqueiro e a barba ocupa-lhe mais da metade do rosto. Veste casaco camuflado do estilo exército, bermuda cor-de-abóbora e chinelo de dedo. Não separando o amanhã do hoje, parece ter atravessado a noite aos goles. Com andar trôpego e lento, ele vem em minha direção. Viro o rosto, disfarço e tento planejar na mente algum tipo de desculpa: “meu amigo, hoje saí de casa sem dinheiro, foi mal.” O homem começa a falar e me provoca dores na consciência. Não, nem tudo é dinheiro. O que ele quer é me propor um desafio, um desafio intelectual. Sem cerimônia, dispara: “Quanto é metade de dois mais dois?” Meu cérebro por volta das sete da manhã ainda não admite maiores raciocínios que admitam maliciosas alternativas. Tasco logo um “dois!” O homem sorri vitorioso, balançando a cabeça negativamente. Em seguida, oferece ajuda feito o professor que anseia pela evolução do aluno inepto: “Quanto é metade de dois?” “Um”, respondo. “Mais dois?”, facilita o homem. O cérebro pega no tranco e eu acerto: “Três”. O homem comemora meu desempenho. Sente-se dotado de sabedoria farta, tão farta que é admissível sua distribuição aos parvos que se espalham pelo caminho. Ao se afastar, comenta às gargalhadas: “Tá vendo como vou me dar bem no Natal!?”

O cavalete alegre

E então chegou a época em que eles se espalham por toda a cidade, por todas as cidades. Todos estão sorrindo, alguns gargalham e mostram dentes de cristais, outros exibem o sorriso contido de galã enigmático. Estão rindo do quê? Por que vão se dar bem? Estão rindo de quem? De mim, de você? Reparem: são sempre os mesmos de quatro anos atrás (ou de dois anos, dependendo da ansiedade de cada um). Se tivermos tempo ou paciência, vamos perceber que estão ficando careca ou com fios do cabelo mais esbranquiçados. Pelo menos o tempo eles não conseguem enganar. Vários deles carregam nas costas o acúmulo de processos criminais e de improbidade administrativa. Mas o que há de mal nisso, se o sorriso deles é tão puro e sereno? A verdade é que nem todos são bem-humorados, nem todos sorriem com facilidade e, claro, por serem humanos há até os que possam sofrer de depressão e problemas do gênero. Seria mais sincero se posassem carrancudos, tristes ou sérios. Qual o problema? 
A mentira começa na foto.   

Dispenso o hexa

O retrato que eu tenho da copa do mundo de 2014, exclusivamente quanto à seleção brasileira, é a imagem em que Thiago Silva, capitão do time, com corpo molengo de soldado ferido, é escorado aos prantos por Felipão depois do jogo contra o Chile nas oitavas de final. É o típico caso em que uma imagem vale mais que mil palavras.
Gosto de futebol e por isso me sinto à vontade para repetir as conclusões mais desanimadoras e nem por isso menos realistas: muito marketing e pouco futebol, muito sentimentalismo forçado e pouca emoção espontânea, muito individualismo e pouco coletivismo, muito choro e pouca alegria. E por aí vai.
Passado um mês da grande final, haverá quem diga que analisar copa do mundo nesta altura do campeonato é remexer discussão ultrapassada. Concordo. Mas então por que damos tanta importância a algo que, passado um mês, já é tido como tema desatualizado e que talvez já nem faça parte de nossos pensamentos diários? Este é o ponto: nesse terreno do futebol, somos doutrinados, assim como mulher de malandro, a dar valor exagerado àquilo que não merece muito mais que uma atenção passageira, um breve torpor, um suspiro de divertimento. Nesse aspecto, acho que o “sete a um” foi aquele tipo de remédio amargo que pode fazer melhorar a prepotência inútil que se reflete naquela frase batida: “somos o país do melhor futebol”. Os estrangeiros já não precisam mais responder, com ar blasé, “e daí?!”, porque depois do “sete a um”, a afirmação soa falsa, além de, agora, beirar o ridículo. Podíamos tentar ser melhores em alguma outra coisa mais importante.
O superdimensionamento que se deu à copa e que normalmente é dado às coisas ligadas ao nosso futebol bem poderia ser repetido agora que Artur Ávila, brasileiro, recebe a medalha Fields, o mais importante prêmio de matemática do mundo. É o que se tem denominado de Nobel da Matemática. O Brasil, que sempre se ressentiu de nunca ter conquistado prêmios máximos de ciência ou cultura, enfim pode se dar o luxo de comemorar a proeza. Temos aí um fato que merece os peculiares gritos de euforia de Galvão Bueno. Sim, é a vez de alardear um grande feito repetidas vezes, exaustivas vezes, em todos os meios de comunicação, valendo até aquelas campanhas publicitárias ufanistas que exaltam a condição de ser brasileiro com muito orgulho, com muito amor. Mas dessa vez a intenção não é encher o bolso das gigantescas empresas patrocinadoras do milionário mundo do futebol. Há a chance de difundir na cabeça das crianças o fato de que o estudo é meio de sucesso pessoal e profissional e que a satisfação não está somente na torcida pela vitória atlética de outras pessoas; também, e principalmente, está na capacidade de alcançar sua própria vitória. Obviamente que tudo isso não tem muito sentido sem que se melhorem as escolas e se valorizem os profissionais do ensino. Mas aí é questão de prioridade. Que a medalha Fields ajude o país a repensar o valor que ele dá às suas preferências.

Se eu, amante do futebol, trocaria a medalha Fields pelo hexa? Não, obrigado. 

Meus vizinhos são os ossos

Às vezes tento formar no pensamento o rosto da minha mãe. O nariz fica grande demais, os olhos não se alinham, a boca tem os lábios entumecidos. Fico aborrecido quando só o que consigo imaginar é um borrão desforme, pardo e emoldurado com os cabelos dela. A figura perfeita do rosto vem quando quer, e não quando eu quero. Me pega de surpresa. O rosto aparece do nada, nos momentos em que estou distraído. É muito rápido. Tento lutar com minha própria memória para que ele não se dissolva. É inútil. O rosto da minha mãe é como o desenho da nuvem que se deforma muito rápido. Já a voz dela não me vem quando quero e nem em qualquer outro momento. Está apagada para sempre desde o último suspiro. Às vezes gosto de me enganar. Quando o vento faz barulho, penso ser a voz da minha mãe. Algumas vezes ela me chama, algumas vezes ela me grita.
O sopro do vento é minha única e talvez última companhia. Estou só. Por todo meu redor não há ninguém. O sol esturrica tudo e faz o chão queimar. A terra secou e a água só faz visita nas poucas vezes de chuva. A sobrevivência por aqui é quase aberração. Minha mãe deixou de comer para não faltar comida aos filhos. Quase nada adiantou morrer de fome. Meus irmãos morreram um tantinho depois. Nunca precisei de muito para o sustento. A minha pessoa foi a única que restou. Mas talvez permanecer vivo neste lugar seja o castigo que eu mereça. A penitência que carrego é a lembrança diária do que eu fiz.
“Se arruma”, ordenava minha mãe. “Se arruma rápido”, insistia minha mãe. Queria que eu ficasse pronto para ir à escolinha. Achava que eu encontraria a chave que me libertaria da miséria. Eu berrava, me debatia no chão, fazia a pior das pirraças. Agarrei-me à perna da minha mãe com uma força desconhecida. Chorava e dizia que não queria me afastar dela. O braço da minha mãe se levantou o mais alto que podia, deixou-se cair e quando caiu levei uma bofetada que me fez calar. Ao sentir o rosto em ardência, desejei que minha mãe morresse. Aí está a maldição que me acompanha feito sombra. Não adiantou arrependimento. O meu intento já havia escapado e vagava livre no ar. No princípio imaginei que só teria minha própria consciência como testemunha. Mas é óbvio que o meu intento esteve bem à vista de Deus e do Diabo. Quando a minha mãe morreu, eu sabia que no fundo o meu intento deixara de vagar a esmo e encontrara a sua razão de ser.
A solidão nunca dá brecha para ser vencida. Estar mergulhado neste vazio é como nascer: não há escolha. Tenho andado em todas as direções e não encontro ninguém. Invado barracos vazios e inspeciono as ruínas de um vilarejo qualquer. O que me mantém vivo são os bichos que também desconhecem a razão de estarem perambulando por aqui. Pretendo que nem os bichos façam aparição à minha frente. Mas tenho medo da morte. Tenho medo de que minha mãe, lá na mansão dos mortos, já tenha descoberto tudo a respeito do dia em que desejei a morte dela. Não saberia como me explicar.
Já dos coiotes eu não tenho medo. Não se interessam por mim enquanto eu estiver vivo. Os coiotes deste lugar são pragas que aparecem para vilipendiar os mortos. Não precisam se preocupar com o trabalho do abate. São dotados de um faro mórbido que os conduz sem demora ao local da comida. São bem mais rápidos que os urubus, o que lhes garante as carnes mais suculentas. Não é coisa boa de ver.
Quando a minha mãe morreu, levaram o corpo para longe das minhas vistas. Disseram que era caso de enterro urgente e afastado. Naquele tempo, a justificativa me foi conveniente, afinal eu não teria mesmo coragem de encarar o rosto falecido da minha mãe. E se ela estivesse sorrindo na hora da morte? E se ela estivesse sorrindo para mim? O maldito desejo de fazer-se produzir seu sono irreversível era vergonha que me impediu a despedida. Ocorre que minha inteligência de hoje, que é melhor que a de ontem, sabe que os coiotes é que deram causa ao sumiço do corpo. É coisa difícil de ver e por isso mentiram para mim.
Sim, eu sei que minha vida não tem sentido senão o de expiar a minha falta. Mas, se morrer é benefício que por enquanto não posso alcançar, é justo que alguma ideia venha em socorro dos meus dias. A condição de estar condenado a conviver com a própria consciência não favorece a inovação das ideias e então é preciso atenção para não perder uma brecha que seja. E ela me vem. O relâmpago que ilumina em centésimos de segundo uma noite escura. É dessa maneira que ela me vem. A ideia súbita me força a procurar o corpo da minha mãe. Eis a distração que agora me move. Pois então como encontrar o que restou da minha mãe se não há alguém ao meu entorno para me orientar? Nem mesmo os bichos que me mantem a sobrevivência podem me prestar auxílio. Mas uma ideia sempre ativa as engrenagens do pensamento. Os coiotes, essas criaturas repugnantes que desrespeitaram a minha mãe, não têm mais de quem arrancar as vísceras. Não há ninguém ao redor. É possível que estejam a rondar os cemitérios à procura de vítimas repetidas. Este é o tempo em que os coiotes vivem de alimento requentado. Algum deles haverá de me levar até minha mãe.
Lá está um deles. De tanto fuçar entranhas, o pelo da cara apresenta a permanência de um tom rosado. Não é difícil persegui-lo. Tem os olhos pregados no horizonte. Depois que estive por tanto tempo na trilha aberta pelo coiote, avisto um mar de túmulos equidistantes entre si. Junto montes de pedras nas mãos e com elas espanto todos os coiotes que vejo pela frente. Arremesso com força, arremesso com raiva, porque o reencontro com a minha mãe não cabe a testemunho de animal traiçoeiro. Estou diante do túmulo da minha mãe e finalmente tenho a oportunidade de me despedir. “Mãezinha, me desculpa. Se a senhora desejar, volto à escolinha. Volto no tempo para lhe obedecer e para arrancar da cabeça o intento que me contaminou os dias. Acredite em mim, mãezinha querida, o desejo de hoje é o oposto daquele intento que apodreceu meu futuro: desejo sua ressurreição, desejo que esteja viva ao meu lado. Só mesmo a senhora tem o poder de desafiar a solidão que me mantém cativo em masmorra fria. Minha mãe, por favor, não me recuse o perdão.” Enquanto estou de joelhos ao lado do túmulo da minha mãe, ouço passos se aproximarem. Passos? De repente algo invade a musculatura do meu braço. Estou fraco, desfalecendo. Será que, enfim, é minha morte que se aproxima? Minha mãe virá me buscar? Uma fisgada é a última sensação antes de perder os sentidos.         

Na clausura em que experimento a mais brutal das solidões, rompe-se uma fenda, pela qual atravessa uma voz. Ela pede que eu conte a minha história. Estou inebriado e distante. Conto tudo. A voz é branda. Diz coisas que eu não entendo. Diz que meus irmãos estão vivos e administram o espólio da minha mãe. Brigam entre si. Diz que eles morreram para mim no momento em que passaram a pretender a minha internação. São coiotes. Diz que a miséria a que me refiro é a miséria moral trazida pelo acúmulo de bens e dinheiro. Diz também que não estou sozinho e que há pessoas velando pela minha saúde. Trajam o branco da paz. São os bichos que me mantém a sobrevivência. A voz se cala. Quando a fenda se fechar, quero dar conta do meu novo intento. Estarei de prontidão ao lado da minha mãe, e por lá fincarei permanência até que ela retorne. 

A poética da mendicância

Normalmente o cenário em que se amontoam alguns mendigos de uma cidade é visto como paisagem triste porém merecedora de, no mínimo, dois segundos da atenção que logo se evapora. Assim é que a miséria exposta nos cantos das praças e ruas é ignorada ou, em outra perspectiva, tida como parte componente da sorte que a cada um cabe.
Na obra “O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam”, de Evandro Affonso Ferreira, a um mendigo é concedida voz e a partir disso o mundo desses miseráveis destaca-se e recebe uma rajada de luz que os retira, pelo menos durante o período de cento e vinte e sete páginas, de sua insignificância. Diferente do que possa parecer, há sentimento e história em cada ser maltrapilho que se arrasta por entre as pessoas que não o enxergam ou que o desprezam ou que o temem.
Eis uma obra de arte em que o mendigo-narrador, abusando de raciocínios líricos, dramáticos e encantadores, demonstra que mesmo aos menos afortunados é permitido o direito de amar com sofisticação.

Van Gogh não pintou seu fim

No dia 27 de julho de 1890, um domingo, após almoçar na Estalagem Ravoux, Vincent van Gogh, munido de tintas, cavalete e pincéis, envereda pelos campos de Auvers para mais uma sessão de pintura. Anoitece quando o pintor desponta com andar trôpego. Retorna sem cavalete, tintas e pincéis, trazendo um pequeno orifício sob as costelas. O que aconteceu de fato naquela tarde é um mistério e as explicações para tal lacuna socorrem-se apenas de versões.
Muito por causa da personalidade depressiva e transloucada do pintor, que inclusive em outros tempos já havia decepado parte de uma de suas orelhas, a versão que ganhou corpo ao longo dos anos é a de que Van Gogh teria cometido uma espécie de suicídio desastrado. Durante a sessão de pintura e enquanto usava a arma para espantar corvos, teria cometido o ato de atirar contra si. Mas a monumental obra biográfica “Van Gogh – a vida”, de Steven Naifeh e Gregory White Smith (Companhia das Letras) pretende confrontar veementemente a tão propalada versão de suicídio. Como se não bastasse a excelência do trabalho de pesquisa que percorre toda a vida do gênio holandês ao longo das mais de mil páginas, o livro já valeria a pena apenas pelo seu final, em que são esmiuçados todos os detalhes relacionados à tragédia, de modo a esclarecer, por exemplo, que o ferimento causado pelo tiro tinha pequenas dimensões e pouco sangramento, o que, associado ao fato de que a bala ficou alojada no corpo, indica que o tiro foi disparado à distância e não à queima-roupa como seria típico de um suicídio. Além disso, merece destaque a figura de René Secrétan, jovem de dezesseis anos que passava as férias em Auvers e que costumava se vestir com trajes de cowboy, incluindo o porte de uma pequena arma. Nesse contexto, levando-se em conta que René Secrétan tinha por hábito perturbar o pintor de modos extravagantes e que sumiu após o episódio (assim como também sumiram a arma e o material de pintura), é bem provável que Van Gogh tenha assumido a culpa e encoberto algum tipo de disparo provocado por brincadeira, acidente ou outro motivo qualquer que não estaria ligado à vontade do pintor, sobretudo diante de uma frase quase elucidativa dita em seu leito de morte: “não acusem ninguém.”

Enfim, após a leitura de “Van Gogh – a vida” é mesmo difícil abraçar a ideia de que Van Gogh tenha tirado deliberadamente a própria vida. Sua conturbada condição psíquica, ainda que parecesse invencível, não suplantou a obsessão em construir as bases de uma nova arte que dava sentido à sua vida. Quando morreu aos trinta e sete anos, estava no auge de sua produção, não parecendo justo que a Vincent van Gogh seja atribuída a responsabilidade incontestável de ter provocado a interrupção de um dos mais significativos patrimônios artísticos da humanidade.  

O pangaré branco

Ao longo do caminho há um terreno baldio. O chão é revestido de mato rasteiro, circunstância em que não é de se espantar a visão, através da tela vazada, de um pangaré branco. Mas ele está indisposto. É velho. Senta-se com enfado e talvez tenha percebido que alguém o observa. Seu rosto pontudo vagueia antes de tombar no chão. Morreu? Imediatamente examino a barriga volumosa. Ela vai e vem; sobe e desce com pressa. Sinto um alívio inocente antes de seguir para o trabalho.

É outro dia e eu já nem me lembro do pangaré branco, pelo menos até olhar novamente para o terreno baldio. Lá está ele. As patas se equilibram no solo desnivelado, o rabo balança espanando o chão, as ferraduras cavoucam o barro, os beiços proeminentes flertam com o capim. Que a ressurreição dure o quanto puder! 

Aquele que a todos domina


Você está sentado confortavelmente na poltrona do cinema, distraindo-se com o brilho da telona. Mas aí entra em ação o brilho concorrente de uma telinha menor, bem menor. Na mesma fileira em que você está sentado, uma mulher acende sua maquininha portátil dos infernos, na qual passa a deslizar seu ágil polegar. A condição vício-escravizante à qual está submetida não a faz perceber que sua atitude incomoda todos que estão à sua volta. E assim a prática inoportuna é repetida diversas vezes durante a exibição do filme.
Você entra em um táxi, que passa a percorrer a avenida engarrafada. O carro se move lentamente. Quando para, o motorista é ágil em acionar o freio de mão. Em seguida saca rapidamente o objeto hipnotizador que o atrai com o inconfundível sinal sonoro cuidadosamente projetado pela Apple: uma mensagem chegou. Sua ansiedade em responder prontamente a mensagem faz com que ele não perceba que o trânsito voltou a fluir. Alguns segundos depois o carro volta a parar, seguindo-se o frenético procedimento de réplica e tréplica, concomitantemente à prestação de um serviço, que, àquela altura, estava relegado ao segundo plano.
Você conversa animadamente com um amigo. O diálogo é bruscamente interrompido porque seu amigo precisa atender a uma chamada repentina. De interlocutor, você se torna testemunha dos assuntos longos e irrelevantes tratados entre seu amigo e a pessoa que o acionou através da caixinha portátil que a todos domina. Sabe-se que o identificador de chamadas foi inventado por um brasileiro. Mas essa engenhosa ferramenta não tem qualquer serventia quando, em detrimento ao contato pessoal, a prioridade absoluta é sempre concedida a quem está remotamente do outro lado da linha.    

Sou da última geração em que aquela transição entre infância e adolescência se deu sem a presença de celulares e internet. É daquele tempo que me vem a memória do prazer indizível que me tomava quando ouvia o berro dos meus amigos me chamando para jogar bola.