A impaciência dos pacientes

Há dois tipos de médicos: os que se atrasam porque estão cuidando de pessoas mais doentes que você, e os que se atrasam porque são semideuses. Doutor Nazaré pertence à segunda categoria. Sente prazer exultante quando adentra a antessala do consultório e se depara com o abarrotar de pacientes impacientes.

Foi assim durante toda sua vida clínica até o dia em que, surpresa!, não havia sequer um único paciente à sua espera. Dona Leocádia, onde estão todos os pacientes? Não sei Doutor, não apareceram, não remarcaram. A partir de então os dias correram sem haver pacientes que o Doutor Nazaré pudesse atender. Será que ninguém mais se adoenta nesta cidade?, resmungava o médico.

Agora sempre ao entrar no consultório, só o que há pela frente é a visão de uma ociosa Dona Leocádia. Passado um mês, Doutor Nazaré enfim parece ter encontrado uma solução: Dona Leocádia, precisei rever meus conceitos. Tome nota aí. Vamos trocar os sofás por outros mais confortáveis, contratar serviço de TV a cabo, inaugurar música ambiente, trocar a qualidade das revistas. Ah, claro, veja como instalar também o wifi. Os pacientes haverão de voltar aos montes. Dona Leocádia olhou o relógio. Naquele dia, Doutor Nazaré havia chegado duas horas após o horário em que normalmente se iniciavam as consultas. Enquanto anotava a lista de providências, Dona Leocádia planejava como procurar outro emprego.

A banda passa, a música fica ou Clair de Lune ao fundo

A banda não passou. As pessoas é que passam, mas há quem pare para vê-la. No domingo de feira, a banda está instalada no vão do prédio da biblioteca. Não é do tipo de banda que passa, é uma banda imóvel. Todos os músicos estão dispostos em cadeiras. O maestro tem muitos anos de idade, tem muitas debilidades. A batuta é o que lhe mantém de pé, a batuta é o que lhe mantém a vida.
Entre saxofones e clarinetes, o som da bateria é o que mais se destaca. Sinto curiosidade em examinar a técnica. É o que me leva para próximo do setor de percussão, a última fileira de músicos. Enquanto toca, o baterista conversa, olha para os ouvintes. É mais ou menos parecido com o que faz Ronaldinho Gaúcho nas ocasiões em que olha para um lado e, num lance de habilidade, toca a bola para o outro.
Há muitas ocorrências ao redor da banda. Tão pequeno que os tênis parecem engolir- lhes os pés, o menino dança, atrai atenções, atrai também a mira do celular do avô. Ignora o fato de estar sendo filmado, continua a dança, ainda não tem idade para se preocupar com poses, só o que quer é dançar. A mãe se aproxima, agora são dois a dançarem do mesmo modo. É a vez de Frank Sinatra. Há também outros que dançam aos pares. De repente o cachorro levanta as orelhas e as mantém bem erguidas. Cochicho com meus botões a constatação de que Frank Sinatra é bom também pra cachorro. A primeira impressão é quase sempre uma ingenuidade. O que faz o cachorro redobrar atenção é a aproximação de outro exemplar da espécie, que só está de passagem, não arrisca desagradar quem está ali desde o início. E a banda continua. My Way alcança o ápice, é aquele ponto da música em que as pessoas suspiram, mexem a cabeça em sinal positivo. Como são bons, diz a emocionada senhorinha. Aplausos.

No domingo à tarde, o vão do prédio da biblioteca está vazio. Não há música, só o que provoca barulho é o desmonte das barracas de feira. Onde estará o menino dançante? E o cachorro? E todas as testemunhas do espetáculo? Faz tempo todos já se foram. É que tudo passa, tudo haverá de passar. A banda, inclusive a banda imóvel, também passa.

A quarta luz

São quatro as luzes do semáforo:
- vermelha;
- amarela;
- verde;
- lua cheia.

Das impaciências e imposturas

Era pra ser ocasião de sorrisos fartos. Fim de semana, há quem tenha contado os dias para então estar ali. Mas no meio da fila uma senhora de maquiagem pesada exibe semblante emburrado de quem está prestes a explodir. É o que acontece. Com braços abertos e cuspindo indignação, ela se aproxima da bilheteria e dispara:

"Como é que é? A fila anda ou não anda?"

Do lado de dentro da bilheteria, a funcionária se aflige, se descabela, age com afobação, faz de tudo para atender às expectativas de quem a enxerga como equipamento autômato. Para ela, não é dia de distração.

Já na sala de cinema, a senhora de maquiagem pesada quebra o silêncio quando ainda faltam três minutos para o início do filme.

"Mas será o Benedito que esse filme nunca começa?"

Homem diminuído

"Homem-Formiga de certa forma é autêntico por abranger o conflito psicológico do homem diminuído."

Foi aí que Kafka se revirou no túmulo.

A inovação dos métodos

"Por Deus, um dinheiro para o almoço."
"Poxa, amigo, saí de casa sem dinheiro."
"Aceito débito ou crédito."

O mundo pesa

Não se admira ter caído de cara no chão.
Carrega o peso do mundo inteiro nas costas. 

Só no frio

A garota passa aninhada no próprio abraço.
Reconcilia-se consigo mesma só no frio.

O mestre da inflação

O banquinho é minúsculo, servindo sob medida para suportar quem está sentado nele. Não passa muito do metro e meio, fumante, boné surrado, camisa polo, calças folgadas, lá está o velho ao lado do calibrador. Não é imagem dada a ser vista por tanta gente, só pelos que vão ao posto de gasolina aos domingos pela manhã. É só um carro se aproximar, e o velho do calibrador se levanta do banquinho, agita-se, exala entusiasmo por ainda ter alguma utilidade. Outros detalhes se revelam a quem se aproxima dele. Nos braços, na cara, não há espaço sem ocupação das rugas. Entre a boca e o nariz, espalha-se a ferida que nunca cicatriza. A fala embolada traz suspeitas sobre a ausência de muitos dentes. De mangueira em punho, o velho do calibrador gosta de deixar as coisas às claras:
“Não sou funcionário do posto. O que faço é só um bico pra conseguir comprar o arroz.”
O velho do calibrador é generoso em dividir os meandros da sua especialidade. Ensina a medida exata de calibragem para cada tipo de carro, adverte sobre a importância de manter o estepe calibrado, manuseia com cuidado o pino das rodas, afinal, conforme faz questão de explicar, sem os pinos a sujeira entra e entope a passagem do ar. Mas há os motoristas que dispensam o serviço, preferindo calibrar os pneus por conta própria. Nessas ocasiões, o velho do calibrador cruza os braços e se afasta constrangido. É o tipo de tristeza que provoca desabafo:
“Não sabem que eu não sou funcionário do posto, não sabem que não tenho carteira e preciso de uma ajudinha.”
É isso: tirar-lhe a mangueira de calibragem é matá-lo um pouco. Não é exagero, o velho do calibrador ao inflar os pneus acaba por inflar também a própria vida.
Nada como um carro após o outro. O velho do calibrador se surpreende com a nota de cinco reais que lhe chega às mãos em dobras, discreta. O sorriso espontâneo deixa ver a falta dos dentes. O velho do calibrador comemora:
"Hoje posso comprar também o feijão."

Dom Casmurro chileno

Quem não conhece o quadro A Origem do Mundo, de Gustave Courbet, e se propuser a procurá-lo no Google, provavelmente haverá de sentir um sobressalto. A partir dele se desenvolve o livro de mesmo nome em que o médico chileno Patrício Illanes percebe-se atormentado pela desconfiança de que sua mulher o tivesse traído com seu recém-falecido amigo.
Qualquer semelhança com o enredo de Dom Casmurro não é mera coincidência. O autor Jorge Edwards já se dedicou a um estudo sobre Machado de Assis e confessadamente diz ter se inspirado na obra do escritor brasileiro para compor a aflitiva dúvida de seu personagem. Aliás, aqui está mais um exemplo a confirmar a importância de Machado de Assis para além das nossas fronteiras.
A trama é ágil, menos por falta de sofisticação narrativa e mais por habilidade técnica do escritor. Nesse aspecto, Mario Vargas Llosa, que assina o posfácio do livro, chama a atenção para a engenhosidade com que foi narrada a morte do personagem Felipe Díaz.
Diferente de Dom Casmurro, o livro de Jorge Edwards não pretende embrenhar-se pelos labirintos das versões enigmáticas. Ao final, ao menos para nós leitores, a questão se resolve sem espaço para dúvidas. E o modo como se revela a verdade é também um grande atrativo do romance. O leitor saberá por quê.  

1º de janeiro


Se me pergunta qual dia do ano é meu preferido, respondo que é o primeiro, porque o barulho dos fogos já não se ouve como no dia anterior, está tímido, longínquo, porque gosto de números ímpares e gosto do número 11, porque parece ser a folha de um caderno novo, no qual dá pena de escrever, porque provavelmente cometerei o engano de grafar o número correspondente ao ano anterior, porque é um dos únicos dias em que lá fora percebemos o que é o silêncio, porque é feriado de verdade, nada de concessões ao lucro desarvorado, porque ele é o mais próximo do final que já acabou e mais distante do final que ainda está por acabar.

A seca e o raso

Então agora temos seca. Agora? Mas e o que sempre tivemos no Nordeste não é seca? Mas lá a coisa é diferente. É? É. O cactus, o sertão alaranjado, os ossos de boi esturricados sob o sol, tudo isso é paisagem regional. Sim, é coisa da paisagem, é o Saara brasileiro. Ah, bom. Mas se agora temos seca no Sudeste, é hora de entender o que há. Sim, o caso de paisagem regional aqui não cola. Não cola mesmo. Bem, então agora vão se mexer e entender o que há. Não sei, temos quinhentos anos e estamos sempre perdidos com essa coisa de entender o que há. Falaram disso no debate eleitoral, será que agora vai? Não sei, tudo é sempre pior do que se diz no debate eleitoral. Soube que o desmatamento na Amazônia pode estar por trás da seca no Sudeste. Isso mesmo, também soube. Repare a comparação: cento e oitenta milhões de campos de futebol devastados. Nossa, nessa área desmatada caberiam um bilhão, novecentos e oitenta milhões de jogadores. Será que sobra espaço pra torcida? Já, já. Que interessante essa coisa de rios aéreos. Sim, eles vêm lá da Floresta Amazônica e se deixam despejar em forma de chuva em cima do Sudeste. É um presentão. Verdade, mas a mamata vai acabar. Estranho, ninguém disse isso no debate eleitoral. Ah, mas o debate eleitoral é tão raso quanto a represa de Guarapiranga. Que clichê. Que clichê, é verdade. Acho que o Saara brasileiro vai crescer. Vai sim, vai virar paisagem nacional. Nunca mais teremos quinhentos anos para entender o que há. Não, nunca mais.

A matemática do ébrio

Ele usa chapéu de vaqueiro e a barba ocupa-lhe mais da metade do rosto. Veste casaco camuflado do estilo exército, bermuda cor-de-abóbora e chinelo de dedo. Não separando o amanhã do hoje, parece ter atravessado a noite aos goles. Com andar trôpego e lento, ele vem em minha direção. Viro o rosto, disfarço e tento planejar na mente algum tipo de desculpa: “meu amigo, hoje saí de casa sem dinheiro, foi mal.” O homem começa a falar e me provoca dores na consciência. Não, nem tudo é dinheiro. O que ele quer é me propor um desafio, um desafio intelectual. Sem cerimônia, dispara: “Quanto é metade de dois mais dois?” Meu cérebro por volta das sete da manhã ainda não admite maiores raciocínios que admitam maliciosas alternativas. Tasco logo um “dois!” O homem sorri vitorioso, balançando a cabeça negativamente. Em seguida, oferece ajuda feito o professor que anseia pela evolução do aluno inepto: “Quanto é metade de dois?” “Um”, respondo. “Mais dois?”, facilita o homem. O cérebro pega no tranco e eu acerto: “Três”. O homem comemora meu desempenho. Sente-se dotado de sabedoria farta, tão farta que é admissível sua distribuição aos parvos que se espalham pelo caminho. Ao se afastar, comenta às gargalhadas: “Tá vendo como vou me dar bem no Natal!?”

O cavalete alegre

E então chegou a época em que eles se espalham por toda a cidade, por todas as cidades. Todos estão sorrindo, alguns gargalham e mostram dentes de cristais, outros exibem o sorriso contido de galã enigmático. Estão rindo do quê? Por que vão se dar bem? Estão rindo de quem? De mim, de você? Reparem: são sempre os mesmos de quatro anos atrás (ou de dois anos, dependendo da ansiedade de cada um). Se tivermos tempo ou paciência, vamos perceber que estão ficando careca ou com fios do cabelo mais esbranquiçados. Pelo menos o tempo eles não conseguem enganar. Vários deles carregam nas costas o acúmulo de processos criminais e de improbidade administrativa. Mas o que há de mal nisso, se o sorriso deles é tão puro e sereno? A verdade é que nem todos são bem-humorados, nem todos sorriem com facilidade e, claro, por serem humanos há até os que possam sofrer de depressão e problemas do gênero. Seria mais sincero se posassem carrancudos, tristes ou sérios. Qual o problema? 
A mentira começa na foto.   

Dispenso o hexa

O retrato que eu tenho da copa do mundo de 2014, exclusivamente quanto à seleção brasileira, é a imagem em que Thiago Silva, capitão do time, com corpo molengo de soldado ferido, é escorado aos prantos por Felipão depois do jogo contra o Chile nas oitavas de final. É o típico caso em que uma imagem vale mais que mil palavras.
Gosto de futebol e por isso me sinto à vontade para repetir as conclusões mais desanimadoras e nem por isso menos realistas: muito marketing e pouco futebol, muito sentimentalismo forçado e pouca emoção espontânea, muito individualismo e pouco coletivismo, muito choro e pouca alegria. E por aí vai.
Passado um mês da grande final, haverá quem diga que analisar copa do mundo nesta altura do campeonato é remexer discussão ultrapassada. Concordo. Mas então por que damos tanta importância a algo que, passado um mês, já é tido como tema desatualizado e que talvez já nem faça parte de nossos pensamentos diários? Este é o ponto: nesse terreno do futebol, somos doutrinados, assim como mulher de malandro, a dar valor exagerado àquilo que não merece muito mais que uma atenção passageira, um breve torpor, um suspiro de divertimento. Nesse aspecto, acho que o “sete a um” foi aquele tipo de remédio amargo que pode fazer melhorar a prepotência inútil que se reflete naquela frase batida: “somos o país do melhor futebol”. Os estrangeiros já não precisam mais responder, com ar blasé, “e daí?!”, porque depois do “sete a um”, a afirmação soa falsa, além de, agora, beirar o ridículo. Podíamos tentar ser melhores em alguma outra coisa mais importante.
O superdimensionamento que se deu à copa e que normalmente é dado às coisas ligadas ao nosso futebol bem poderia ser repetido agora que Artur Ávila, brasileiro, recebe a medalha Fields, o mais importante prêmio de matemática do mundo. É o que se tem denominado de Nobel da Matemática. O Brasil, que sempre se ressentiu de nunca ter conquistado prêmios máximos de ciência ou cultura, enfim pode se dar o luxo de comemorar a proeza. Temos aí um fato que merece os peculiares gritos de euforia de Galvão Bueno. Sim, é a vez de alardear um grande feito repetidas vezes, exaustivas vezes, em todos os meios de comunicação, valendo até aquelas campanhas publicitárias ufanistas que exaltam a condição de ser brasileiro com muito orgulho, com muito amor. Mas dessa vez a intenção não é encher o bolso das gigantescas empresas patrocinadoras do milionário mundo do futebol. Há a chance de difundir na cabeça das crianças o fato de que o estudo é meio de sucesso pessoal e profissional e que a satisfação não está somente na torcida pela vitória atlética de outras pessoas; também, e principalmente, está na capacidade de alcançar sua própria vitória. Obviamente que tudo isso não tem muito sentido sem que se melhorem as escolas e se valorizem os profissionais do ensino. Mas aí é questão de prioridade. Que a medalha Fields ajude o país a repensar o valor que ele dá às suas preferências.

Se eu, amante do futebol, trocaria a medalha Fields pelo hexa? Não, obrigado.